sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bullying e saúde mental • Bullying and mental health

Bullying é o nome, de origem inglesa, dado a uma seqüencia de atos violentos de característica física e/ou moral, cometidos de forma incisiva e repetitiva, contra uma ou várias pessoas, que normalmente se encontram em uma situação de vulnerabilidade ou em um contexto ou situação em que se torna improvável a sua auto-defesa. Esse tipo de violência se configura entre pares, ou seja, entre pessoas semelhantes, que não estão em uma relação hierárquica ou de poder e por isso, é mais comum definirmos Bullying como a violência escolar entre alunos, apesar de ele ter outras definições em outras culturas.
         Muito tem sido observado no país ultimamente acerca do Bullying. Não porque o termo foi criado recentemente. Na verdade, essa definição já existe há alguns anos no Brasil mas, infelizmente, começou a "cair na boca do povo" há alguns meses, com o ocorrido em Realengo este ano.
           A tragédia de Realengo é um exemplo importante para dar início à discussão que pretendo gerar. Há muitos profissionais da saúde dizendo na mídia que o Bullying não foi o motivo principal pelo qual Wellington resolveu assassinar os estudantes no Rio de Janeiro. De fato, podemos dizer que foi um conjunto de acontecimentos e vivências, em toda a existência de Wellington, que puderam, juntos, corroborar para esse quadro. Mas não podemos deixar de fora o fato de que toda a violência moral e física vivenciada por ele durante quase todo o seu momento escolar teve uma importância gravíssima em sua saúde mental e sua visão de si próprio e do mundo. Em suas cartas, Wellington diz que o motivo de suas ações não tem a ver exclusivamente com o Bullying sofrido por ele. Mas diz respeito a várias outras lutas que ele tem para si, que no fundo poderiam estar intimamente relacionadas com a significação que ele dá para o conceito de violência,   respeito, convivência social, que com certeza foi construída em seu período de maior importância e formação de self, seu período escolar, que corresponde à sua infância e adolescência.
            Não podemos tentar procurar uma psicopatologia em que Wellington se encaixe, ele não está vivo para podermos compreender melhor sua subjetividade e não temos detalhes suficientes sobre seus pensamentos e seus reais motivos para ter feito o que fez. O que sabemos é que ele vivenciava uma nítida percepção distorcida da realidade, com pensamentos e crenças muito fortes, voltados para um estilo de vida e uma missão construída por ele como algo realmente importante para sua existência. Essa distorção, de acordo com seus conteúdos observados, provavelmente se relaciona intimamente com a realidade por ele vivida, não somente com o histórico de violência na escola, mas por todas as consequências geradas por um estilo de conduta que, aparentemente, já vinha sendo manifestado por ele desde pequeno. A compreensão social acerca de seu quadro parece bastante comprometida. Com certeza Wellington passou por muitas dificuldades e preconceitos. O próprio Bullying cometido contra ele denuncia que suas particularidades e suas características eram vistas como "estranhas" e "vulneráveis" por seus colegas de classe. Talvez não seja possível dizer a partir de que momento essa psicopatologia possa ter começado a se manifestar, mas pode-se afirmar que seu prognóstico foi fortemente influenciado pelo contexto em que ele precisou viver, marcado por  muitos episódios de violência, incompreensão e provavelmente segregação.
               Por isso, retoma-se o alerta em relação à probabilidade de um Bullying estar ocorrendo. Percebe-se que a criança modifica sua motivação para ir à escola, sua auto- estima fica prejudicada, ela experimenta bastante isolamento social, suas notas e aproveitamento das disciplinas sofrem grandes modificações. Se não é detectado pela escola e pelos pais que há algo que está afetando diretamente o emocional da criança, e nada é feito em relação a isso, ela tende a ficar pior e pode sim desenvolver outros prejuízos maiores para sua vida, tal como um adoecimento mental e físico e a conseqüente atitude impulsiva como o suicídio ou o homicídio, como o observado em Realengo.
                Antes de apontarmos o dedo para o agressor, no entanto, precisamos nos lembrar que ele também tem um sofrimento envolvido. Violência e abandono em casa podem ser fatores que colaboram para que a criança tome atitudes agressivas na escola, não só porque aprendeu e revivencia o que vê em sua própria família, mas como um depósito de ações agressivas e descarregadoras de tensão, que não são possíveis de serem manifestadas em casa. Também por aceitação social, encaixe no grupo, reconhecimento. O que é preciso ser lembrado é que violência e agressividade também é sintoma de um emocional desequilibrado. Não somente o agredido vivencia dor, o agressor também precisa de compreensão e precisa que suas condições de vida e seu contexto social seja modificado.
            O Bullying é uma violência que se manifesta a partir de uma demanda emocional que precisa ser bem investigada. Se não é possível preveni-la, é possível repará-la e evitar que fique mais grave e traga mais sofrimento tanto para quem o comete, quanto para quem o recebe. Nossas escolas precisam estar mais bem preparadas para falar sobre o assunto com seus alunos, mas também para saberem detectar e tomar providências caso percebam que algo está acontecendo. Precisamos lembrar que o período escolar pode significar momento de importante construção de um ser completo, com crenças, pensamentos, idealizações, condutas, motivações e interpretações que se refletirão em seus comportamentos como adulto anos depois. Se esse momento da vida não foi bem vivido ou foi recheado de péssimos vínculos e episódios traumáticos e fragmentadores, é possível que traga sérias consequências para o depois, trazendo bastante prejuízo para o ex aluno e podendo, inclusive, desencadear sofrimento psíquico grave.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Inimputabilidade penal • Mental Incapacity in criminal sentencing



O conceito de inimputabilidade penal diz respeito à incapacidade que uma pessoa apresenta de responder legalmente sobre um ato cometido, provocado pelo não entendimento das consequências de seus atos e a impossibilidade de ser punida pelos seus comportamentos. Ela é normalmente comprovada por perícias e divulgadas por laudos detalhados. Mas ainda assim é vista com maus olhos por muitos profissionais e ainda é muito discutida por todas as ciências humanas que, por algum motivo, ainda não dão conta da tamanha complexidade que o assunto pode gerar.
Mas para falar de inimputabilidade penal, primeiramente julgo necessário se falar no que realmente gera a incapacidade de uma pessoa em responder legalmente por seus atos e mais, por que o sistema prisional comum, como as penitenciárias que bem conhecemos, não são os melhores destinos para quem possui esse perfil inimputável?
São vários os motivos que levam uma pessoa a cometer um crime. A sociedade está acostumada a julgar comportamentos humanos sob uma base maniqueísta, em que o bem sai na frente no poder pela justiça e o mal deve ser punido independentemente de qualquer explicação ou causa. A verdade é que, analisando de perto, qualquer crime terá explicações plausíveis quando vistos pelo referencial de quem o comete. Falando em homicídio, é difícil deixar de lado toda a discussão moral e ética acerca do alguém que retira o direito de vida de outro alguém. Essa pressão filosófica é tão grande, que não cabe espaço para maiores análises ou para maiores explicações e a gente toma a posição de querer defender o "bem" e esquecer o "mal" ou deixá-lo longe do convívio social, longe de seus direitos, longe de uma compreensão e um perdão.
Ao meu ver, qualquer pessoa que esteja em sofrimento psíquico grave é uma vítima de uma consciência afetada. Digo vítima porque acredito que a consciência é um estado mental que tem muito mais controle sobre nós mesmos do que nós sobre ela. Fatores inconscientes mediadores e moderadores de comportamento podem ter suas portas abertas, uma vez que nosso sistema psíquico passa por qualquer embaralhamento e quanto a isso, não temos um controle consciente, não é como curar uma tosse tomando um remédio. São vários transtornos mentais que podemos listar como possuindo características de confusão com a realidade, não somente os psicodinamicamente psicóticos. Uma pessoa em depressão fortíssima terá uma visão da realidade afetada, mas isso não a classifica como psicótica. Um paciente com Transtorno de Personalidade Borderline também pode apresentar uma forma muito peculiar de enxergar sua convivência em sociedade, sobretudo sobre seus relacionamentos interpessoais, e isso também não o classifica como psicótico. Então o que, exatamente, faz com que uma pessoa se encaixe em um perfil de inimputabilidade penal?
De acordo com o DSM-IV-TR, transtornos mentais são "concebidos como síndromes ou padrões comportamentais ou psicológicos clinicamente importantes, que ocorrem num indivíduo e estão associados com sofrimento ou incapacitação ou com um risco significativamente aumentado de sofrimento, morte, dor, deficiência ou perda importante da liberdade". Então qualquer que seja a condição mental de um paciente, suficientemente prejudicial para seu funcional, ocupacional e social, pode-se dizer gerar um padrão clinicamente importante, no sentido de que deve ser tratado corretamente com psicoterapia e, muitas vezes, com psicofarmacologia. Um paciente com esquizofrenia, por exemplo, pode manifestar delírios e alucinações que condizem com um desejo muito grande de matar alguém, com uma explicação que, em seu universo subjetivo, é completamente plausível. Como um paciente suicida atendido no Hospital de Base, que acreditava com todas as forças que deveria se matar para livrar sua mãe dos espíritos do mal. Depois de ter sobrevivido à tentativa de auto-extermínio, o delírio do paciente passou a ser o de matar sua própria mãe, pois só assim ela seria liberta. Em um caso como esses, é complicadíssimo segurarmos o paciente pela mão e tentarmos fazer com que ele enxergue a realidade. Porque afinal de contas, de qual realidade estamos falando? Um paciente tido como portador de um Transtorno Mental vive sua subjetividade muitas vezes sem sofrimento consciente algum. Seus comportamentos e atos são tidos como lógicos e muitas vezes não há discurso racional que faça uma idéia ser barrada e desconstruída.
Um paciente com Transtorno de Personalidade Anti-social, o famoso sociopata ou psicopata, tem uma vivência tão apática quanto aos direitos vitais de outras pessoas, que ele pode assassinar um próximo simplesmente para conseguir suprir uma necessidade própria. Falta a esse paciente uma visão empática, solidária, e "consciente" com os valores morais estabelecidos por lei, por exemplo. Como julgar uma atitude de um sociopata sob os olhos do direito penal e garantir a ele uma sentença puramente punitiva se, ao final de sua condenação, ele retornará à sociedade ainda portando seu transtorno de personalidade e ainda carregando sua subjetividade e visão de mundo?
Questionar a inimputabilidade penal deve levar em consideração exatamente isso: a subjetividade e a visão de realidade que uma pessoa possa ter. É através do convívio que internalizamos valores morais que nos constroem como pessoas conscientes de nossos deveres e direitos como cidadãos. Quando com um aparato psicológico intacto e saudável, essa internalização ocorre facilmente, sem muitas dificuldades, e a simples visão do direito a vida do próximo é enxergada quase que automaticamente. Uma vez que esse aparato psíquico falha na introjeção desses valores morais "normalmente" consolidados, a consciência para o direito à vida de outrém já não é a mesma.
O sistema penitenciário brasileiro está focado em promover a punição daqueles que cometem crimes. São cárceres em condições desumanas, abrigando muito mais gente do que podem suportar, com um regime torturante. A visão não é a de uma recuperação do ser humano, muito pelo contrário, muitos saem de lá mais experientes do que já entraram. A punição severa a qual estão submetidos parece dar espaço apenas para um arrependimento profundo, o que não comprova que nunca mais precisarão cometer os mesmos crimes que já foram cometidos em outro momento. Mais uma vez, os diversos motivos que levam uma pessoa a se comportar e a cometer crimes são tão complexos, que nada pode ser comprovado acerca de uma outra situação em que um crime poderia ser cabível. Ou seja, é perfeitamente compreensível que uma pessoa possa sair da cadeia anos após ser admitido, arrependido pelo que fez, mas ainda em condições sociais e humanas tão precárias que a probabilidade de precisar cometer outro crime é ainda altíssima.
Vendo isso, é possível se enxergar os motivos pelos quais não há como sentenciar uma pessoa que não tem consciência de seus atos. Um anti-social, após matar seis garotos e não ver seriedade em seus atos, irá cumprir pena por anos e sairá ainda em sua condição mental e cometerá outros crimes tão graves ou piores quanto os já cometidos. Enquanto o sistema prisional estiver focando apenas na punição e não na recuperação do ser humano, não há como tratar as pessoas com perfil inimputável de outra forma.
Para sentenciar alguém ao corredor da morte, por mais que não tenhamos pena de morte aqui, parte-se do pressuposto de que essa pessoa possui plena consciência de seus atos e agiu de forma cruel, promovendo um mal para a sociedade e deve ser punida por isso. No entanto, isso não lhe retira o direito já pré-determinado de vida, de bem-estar e de existência digna. Se uma pessoa não é capaz de enxergar a realidade como enxergamos e não possui os olhos que possuímos para ver que seus atos causaram um mal a outras pessoas e feriram seus direitos como cidadãs, puni-la sob um regime comum não trará resultado algum, a não ser privá-la de liberdade, enquanto podia estar tendo a recuperação ou o tratamento correto para sua condição mental.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Gênero e violência conjugal • Gender and domestic violence



É milenar a história da vitimação feminina à visão hierárquica do patriarcado, que sempre colocou a mulher em uma posição de subordinada e passiva, diante de um poder masculino sempre ativo e disciplinador. Podemos chamar de gênero o papel que homens e mulheres têm na sociedade, e papéis de gênero, as atividades, comportamentos e funções atribuídas a eles.
Os papéis de gênero estão nitidamente retratados no nosso cotidiano nas mais variadas formas. A sociedade brasileira ainda carrega consigo um imaginário machista que se reflete desde a vivência dentro de casa, com a nossa educação de berço, até na consolidação da justiça, que teoricamente deveria privar por direitos iguais e justos. Apesar de muito ter mudado ao longo do tempo, inclusive com o movimento feminista, que conquistou um espaço fundamental nas políticas públicas e na reflexão social, infelizmente ainda se vive uma discriminação muito grande no que diz respeito à vivência feminina, em todas as dimensões.
É nítido o modelo educacional brasileiro passado de geração para geração. Desde crianças somos instruídos a ver o papel de homem e mulher muito bem consolidado, com regras, valores e idealizações bem limitados. As meninas aprendem a ver o mundo como um espaço que demanda uma postura materna, um preparo físico e emocional para ser reprodutora, dona de casa e boa mulher. Os meninos aprendem a se ver como provedores de uma vida familiar, estimulados a investirem em carreiras profissionais, a virarem seus olhares para o universo público. Esses papéis de gênero não são internalizados somente por meio da educação de casa, todos os meios de comunicação contribuem para a perpetuação desses ideais, mesmo que de forma indireta, moldando cabeças e instruindo condutas e atitudes perante uma sociedade que deveria ser totalmente heterogênea. Quantas vezes não vimos propagandas na televisão, retratando o contexto familiar e utilizando a imagem da mulher ora como uma dona de casa dedicada, ora como um pedaço de mau caminho, totalmente sedutor e perigoso? Quantas vezes não vimos em revistas femininas páginas e mais páginas estimulando cada vez mais o pensamento amedrontador da mulher, produzindo cada vez mais pensamentos machistas e debilitantes, do como agir em sociedade, o que fazer e o que não fazer diante de certas situações?
Toda essa visão da mulher como um ser frágil e submisso colabora para as relações de poder que se formam, quase que naturalmente, dentro de interações homem - mulher. Seja dentro da família com o pai sendo o centro disciplinador, seja dentro de relações afetivas, em que o cônjuge permanece em um papel ativo e dominador, seja no contexto do trabalho, em que homens exercem cargos de alto poder.
Muito provavelmente , essa internalização do poder masculino seja o principal fator que colabore para a ocorrência de tantos casos de violência conjugal, em que a mulher pode estar submetida, realmente, a uma relação de dominação e por simplesmente não poder se defender sozinha. O que se tem percebido é uma dificuldade de traçar um perfil de agressor, demonstrando que pode não existir uma padronização de comportamentos e de condutas masculinas que caracterizem esse quadro. Boa parte dos agressores é constituída por homens de classe média, com boa instrução e sem históricos prévios de violência. Então o que exatamente faz com que situações como essas ocorram?
Pesquisas têm demonstrado que homens tendem a praticar violência em momentos de raiva, reagindo a algum pensamento destrutivo em relação à mulher. Apesar de não haver um perfil muito bem determinado, há sinais prévios que demonstram ciúme e proteção exagerada por parte do homem, além de outros episódios de violência psicológica, normalmente muito difíceis de serem detectados. Talvez uma melhor pergunta gire em torno do motivo pelo qual tantas mulheres permanecem submetidas a relações conjugais violentas e por que parece tão difícil ter atitudes que decidam de uma vez por todas por acabar com esse ciclo de agressividade. Alguns dos vários motivos que as mulheres apontam para não denunciarem algum ato de violência dizem respeito ao medo de reagirem à agressão e passarem por algo muito pior posteriormente. Há mulheres que tendem a ver o ato de agressão como algo naturalizado, o pensamento de que é normal se esperar de um homem atitudes violentas, sinal de uma compreensão de papéis de gênero muito provavelmente passada por outras gerações. Há mulheres que preferem se submeter a relações conjugais violentas para protegerem seus filhos, para manterem a dinâmica familiar e também por relatarem amarem seus cônjuges e não verem o ato violento como algo de muita importância.
É importante se dizer que qualquer relação de violência, seja ela envolvendo homens agressores e mulheres vítimas, seja ela envolvendo homens como vítima e mulheres como agressoras, envolve uma interação dinâmica que precisa ser compreendida. O acolhimento é um procedimento de altíssima importância em qualquer um dos casos, pois terá um papel protetivo e preventivo, possibilitando até a resolução de problemas conjugais, centrais nesse contexto de violência.
Outra questão que pode ser levantada acerca do tema diz respeito aos diversos casos de violência conjugal praticamente inacabados e sem proteção nenhuma por parte do Estado. Apesar de a Lei Maria da Penha ter sido consolidada há alguns anos, ainda se pode ver posturas extremamente machistas no contexto jurídico, que acaba por transformar a agredida em transgressora, levantando motivos totalmente descabidos para justificar a atitude agressiva do cônjuge e tomando decisões que não visam a proteção da vítima, possibilitando novos episódios de agressão.
As discussões acerca dos papéis de gênero e das relações de poder são tópicos cada vez mais crescentes. Há ainda uma grande necessidade de reflexão acerca do tema para se levantar melhores idéias e posturas que podem gerar melhores acolhimentos e decisões protetivas. Compreender os motivos que levam uma relação a se estabelecer como uma interação de poder e violência é fundamental, mas saber como agir nessa situação, dando apoio à vítima, buscando a compreensão dessa dinâmica relacional e tomando decisões corretas que visem a prevenção de novos episódios violentos é ainda mais importante.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A memória • The memory



O que exatamente está envolvido no estabelecimento de memórias? Que áreas cerebrais subsidiam a aquisição de novas lembranças e a recuperação de fatos armazenados há algum tempo? Porque lembramos e esquecemos de tanta coisa? O que acontece quando sofremos lesões e temos amnésias?
A memória é um assunto de pesquisa tão complexo, que são necessárias páginas para se dissertar exatamente sobre tudo a respeito do tema! Mas existem alguns conhecimentos importantes e básicos sobre o assunto que podem ser explorados, trazendo um gostinho a mais de se pesquisar mais a fundo sobre esse assunto misterioso da vivência humana.
Bem, a memória é um fator da cognição ligada a vários outros fatores, essenciais para a nossa existência e interação. A memória está relacionada à aquisição da aprendizagem, consequentemente relacionada à resolução de problemas. Desde a aprendizagem sensorial, envolvendo o reconhecimento de estímulos ambientais, a nível tátil, auditivo, visual, até a aprendizagem semântica, envolvendo a construção linguística e fonológica, chegando à aprendizagem procedural, envolvendo o "saber como", as etapas necessárias e específicas para se realizar uma atividade e se resolver um problema.
A memória se configura em três formas. É a partir da memória sensorial que entramos em contato com os estímulos ambientais e armazenamos informações por um curto período de tempo. Nesse período, estamos nos utilizando da memória de curto prazo, que foi substituída pelo conceito de memória de trabalho. Essa memória é limitada e serve para que possamos realizar alguma tarefa, utilizando essa informação e conhecimento brevemente armazenados. Se criamos um acesso frequente a memórias de trabalho ou de curto prazo, elas podem vir a ser memórias de longo prazo, praticamente definitivas e passíveis de recuperação a qualquer momento. A memória de longo prazo contém lembranças inesquecíveis sobre fatos da vida, além de algumas outras informações que podemos até perder com o passar do tempo. Ela também pode ser dividida entre memória declarativa e não- declarativa. A primeira, diz respeito a toda a memória de que temos consciência, que podemos acessar tentando apenas resgatar uma informação. A segunda diz respeito às memórias inconscientes, que resgatamos inconscientemente, de acordo com estímulos e situações ambientais.
A memória declarativa pode ainda ser definida como do tipo episódica ou semântica. A primeira diz respeito à lembrança de episódios organizados no tempo. Como a lembrança de o que comemos no café da manhã, quais procedimentos e em que sequência tudo ocorreu. A segunda diz respeito à memória de significação, envolvendo palavras, números, códigos, etc.
Sabe-se que existe uma área cerebral responsável pela memória: o hipocampo. Mas foi a partir de estudos significativos que chegaram à conclusão de que o hipocampo não é responsável por todo tipo de memória. H.M. foi um paciente que passava por um quadro de epilepsia e passou por uma intervenção cirúrgica a fim de aliviar os sintomas da doença. Ele teve seus lobos temporais mediais bilateralmente retirados, o que facilitou o controle dos sintomas da epilepsia com o uso de fármacos, mas trouxe uma amnésia anterógrada grave associada a uma amnésia retrógrada leve. Amnésia anterógrada é uma incapacidade de lembrar e armazenar memórias após a cirurgia. Ou seja, H.M. ficou incapacitado de obter novas memórias depois que passou pelo procedimento, conseguindo apenas efetuar rápidas atividades, com o uso da memória de curto prazo. Amnésia retrógrada é uma incapacidade de lembrar memórias obtidas antes da cirurgia. H.M. teve uma amnésia retrógrada leve pois ficou incapacitado de lembrar de fatos que ocorreram alguns anos antes da cirurgia, mas era capaz de lembrar de vários fatos da infância, além de se lembrar de aprendizagens como falar, efetuar cálculos, vestir-se, entre outras coisas.
H.M. teve seu hipocampo comprometido por conta dessa cirurgia, o que levou os pesquisadores a pensarem que essa área está responsável pelo sistema de aquisição de novas memórias e, consequentmente, de novas aprendizagens. Criou-se então uma teoria de que o hipocampo recebe informações de outras áreas cerebrais, como núcleos da base a amígdala, e as modifica, transformando memórias de curto prazo em memórias de longo prazo. Mas não se sabe ainda quais áreas cerebrais estão ligadas ao armazenamento definitivo dessas memórias de longo prazo. Apesar de H.M. ter tido comprometimento de algumas informações de longo prazo, ou seja, ter apresentado uma amnésia retrógrada leve, ele ainda mantinha memórias remotas muito fortes. O que possibilitou que isso acontecesse?

terça-feira, 20 de julho de 2010

Mente e corpo • Mind and body


Seria muito ingênuo por parte do homem se ele pensasse que mente e corpo estão separados, no sentido de que podemos traçar linhas imaginárias limitando o que é palpável pela ciência e o que é misterioso, admitindo que um não interfira no outro.
A Psicologia é uma ciência extraordinária porque trouxe o questionamento acerca do que realmente se deve prestar atenção e a resposta foi enormemente diversificada. Podemos ver estudos que focalizam o contexto inconsciente da psique, vemos estudos com animais em laboratório, vendo comportamentos responsivos a fármacos e mapeamentos cerebrais, vemos estudos sociais, envolvendo conduta, motivação, pensamentos em conjunto. Enfim, como ver o universo humano como algo único e simples, se fazemos parte dele e, por experiência própria, sabemos que estamos longe de realmente entendermos sobre tudo?
As psicopatologias são interessantíssimas porque trazem o paradoxo mente-corpo para as discussões. Dependendo da linha que se segue, a visão de um Transtorno de Ansiedade Generalizada poderia ser, simplesmente, uma reação agonizante diante de conflitos do ego, por exemplo. Ou, por outro lado, reações químicas cerebrais que ocorrem a partir de interações corporais com eventos e estímulos ambientais que se tornaram aversivos.
Bem, para mim, não podemos separar a mente do corpo quando falamos em psicopatologias, pois elas compreendem um universo sintomatológico de origens diversas. É como pensar em uma pessoa com obesidade mórbida. Ela se colocou nesse quadro por uma questão genética, ou por costumes alimentares compulsivos? Se pelo segundo, será que são questões culturais ou de criação ou por questões puramente emocionais? Se ela alcançou a obesidade mórbida e sofre com isso, o que a impede de perder peso e voltar a ser saudável? São limitações físicas ou psicológicas? Ambas! Há vários motivos para se acreditar que uma pessoa tenha tendência genética a ganhar peso. Mas para chegar a um quadro de obesidade mórbida, pensa-se que, no mínimo, existam fatores emocionais fortes, que facilitam a compulsão e finalizam em uma situação de alta periculosidade.
O mesmo podemos falar sobre estresse exagerado. As situações cotidianas nas quais nos envolvemos, preocupações, pressões sociais, responsabilidades, dores de cabeça dos mais variados tipos, até acontecimentos que fogem de nosso controle como uma morte de alguém, um divórcio, uma demissão... Tudo isso colabora para situações tão estressantes em nossas vidas, que às vezes passam despercebidas. Há situações que fogem tanto de nosso controle, que se tornam patológicas. É muito fácil uma pessoa se tornar depressiva diante de uma situação estressora, da qual há um enorme quadro de frustração. E diante disso, vemos reações neurobiológicas muito delicadas, que dão respaldo para as suspeitas psicológicas. Se não houvesse uma correlação mente e corpo, por que um paciente com Transtorno Depressivo Maior apresentaria quadros de insônia, perda de peso e amnésia anterógrada? Por que um estresse patológico faria cair cabelos, perda de apetite? Nossa mente está tão interligada com nosso corpo, que mal temos a noção do quão importante são nossos pensamentos e motivações diante de uma doença aparentemente fisiológica.
Esses questionamentos têm importância seríssima no enfrentamento de situações em que não há muito que se fazer. Um doente terminal, diante de uma quase morte, possui alta probabilidade de se fechar em um quarto, deprimido, porque não consegue lidar com o fato de estar prestes a se despedir do mundo. Talvez o próprio prognóstico da doença tenha uma melhora significativa se o paciente passar por um processo motivacional, que o anime a lutar até o resto de seus dias, com alegria, satisfação.
Podemos falar, também, do efeito placebo. Esse feito nada mais é do que uma influência psicológica para várias questões de saúde. Não é simplesmente usar uma pílula de farinha, totalmente enganosa, para fazer alguém acreditar em um tratamento. O efeito placebo já está comprovado e demonstra o quão forte está o pensamento e a motivação, por cima de quase tudo aquilo que nos parece físico e incontrolável.
O fazer psicologia é extraordinário porque nos abre portas teóricas e metodológicas imensas. Mas para todos aqueles que têm curiosidade ou que se iniciarão nessa ciência, talvez seja importante manter suas visões abertas. A ciência não deve se limitar àquilo que só conseguimos apalpar. A ciência está longe de responder tudo o que perguntamos e precisamos ser ousados. O que posso concluir, agora, é que mente e corpo mantêm uma ligação tão íntima e tão forte, que mal podemos imaginar o poder que nossos pensamentos têm sobre nós mesmos. Muitos estudos ainda podem ser feitos sobre o assunto. Ser um psicólogo consciente é saber que há muito ainda a se conhecer.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Depressão, o Transtorno Depressivo Maior • The Major Depressive Disorder



A Depressão tem se tornado a doença do século. Talvez seja muito importante se perguntar por que isso está acontecendo. Eu diria que podemos listar diversos fatores que poderiam contribuir para a ocorrência cada vez maior de depressão nas pessoas, nas mais variadas idades e classes sociais. Mas é realmente muito difícil generalizar, cada pessoa possui seu universo emocional e cada pessoa terá sua angústia apoiada em um motivo ou vários motivos específicos.
O Transtorno Depressivo Maior, como é chamado, é um transtorno de humor bastante estudado por especialistas ultimamente. Sabe-se que pode existir algum fator neuroquímico envolvido, como falta do neurotransmissor serotonina agindo no organismo. Mas acredito que a depressão possui um fator muito mais ambiental do que químico, além de genético.
Neste transtorno o que mais se observa é um humor deprimido muito frequente e, aparentemente, sem muitos motivos. A pessoa fica chorosa, desanimada, sonolenta, sem energia para fazer as coisas e costuma se culpar muito por vários motivos. O misterioso é que muitas vezes as pessoas deprimidas sabem que tem algo errado acontecendo, sabem que o motivo para estarem assim é desconhecido, sabem que precisam de ajuda, mas nem para isso se motivam. Poderia dizer que um paciente em depressão encontra-se enjaulado, porque ele tem consciência do sofrimento pelo qual está passando, gostaria muito de ser ajudado, mas está em uma desilusão muito grande, normalmente não acredita que possa melhorar, que suas angústias possam ir embora e começa a se sentir inútil e culpado pela situação ou por diversos outros acontecimentos em sua vida.
É muito comum encontrar em pacientes deprimidos a vontade de tirar a própria vida. De acordo com o DSM-IV, um dos principais livros diagnósticos seguidos por profissionais da saúde, a ideação suicida ou idéias sobre morte é um critério fundamental para se diagnosticar o transtorno. Esse critério pode, inclusive, mudar a perspectiva do profissional diante do paciente, o prognóstico pode ficar mais complicado e a internação pode ser uma solução imediata.

Em uma pesquisa que realizei na universidade discutimos a percepção da dor em pacientes com depressão. Um dos tópicos que chamam a atenção é a comorbidade da fibromialgia com a depressão. A fibromialgia é uma doença que normalmente atinge mais mulheres do que homens, ela se caracteriza por dores generalizadas, sem causas orgânicas aparentes. Os pacientes se queixam de sentirem dores no corpo todo e, quando submetidos a exames médicos, não são encontrados motivos fisiológicos para suas dores. Os médicos, então, rotularam a fibromialgia como uma doença psicossomática, quer dizer, uma doença que possui aspectos psicológicos com interferência em aspectos físicos. Por isso é muito comum encontrarmos pacientes com fibromialgia carregando também um humor deprimido e o contrário também! A pergunta é: o que veio primeiro? O paciente adquiriu fibromialgia por conta de sua Depressão ou o paciente se tornou deprimido por conta da fibromialgia?


Sobre os tratamentos para a depressão existe uma discussão quase infinita. Os psiquiatras receitam frequentemente anti- depressivos fortes (tarja preta), além de remédios para auxiliarem o sono, que acabam causando dependência. Há alguns terapeutas que defendem que muitos casos de depressão não precisam do auxílio de remédios. O que seria o mais indicado para o tratamento da doença?
Eu levo comigo a opinião de que todas as terapias existentes podem dar um grande auxílio ao paciente, mas elas dependem da adesão do paciente e do interesse dele em ficar melhor. Qualquer terapia, investida de fé e esperança por parte do paciente, pode tirá-lo desse quadro de sofrimento, desde que bem feita, é claro. Acredito também que existem várias atividades diárias que podem ser feitas para auxiliar o tratamento. Estão sendo feitas pesquisas que abordam o uso da dança, da pintura, da fotografia, ou seja, das artes de forma geral, para a cura da depressão. E elas realmente podem ajudar. São métodos que mexem não só com o processo emocional do paciente, que pode usá-los para se expressar e de certa forma desabafar, como mexe com a auto-estima. Já nos casos mais severos da doença, em que se percebe por exemplo uma ideação suicida muito forte, acho que a intervenção química é muito importante, porque afinal de contas, sabe-se que o déficit de serotonina no organismo traz consequências de muito sofrimento para o paciente. Os anti-depressivos, então, dariam uma ajuda quase imediata para o sofrimento, impedindo que o paciente cometa um suicídio.


Eu poderia resumir esse quadro dizendo que a Depressão é uma doença muitas vezes negligenciada pela própria família do doente, ou até por outras pessoas do convívio social. Na atualidade, é muito comum ver pessoas sempre muito estressadas e preocupadas com a vida, quase sempre carregando um humor deprimido e, então, quando se trata de um caso sério, como o Transtorno Depressivo Maior, muitas pessoas não conseguem discriminar a doença, no sentido de acharem que faz parte da vida, que é comum se sentir triste de vez em quando e esperam que o tempo faça a sua parte. Infelizmente, não são todos os pacientes que têm uma melhora significativa com a passagem do tempo e acabam tirando suas vidas por se sentirem sozinhos, desiludidos, sem perspectiva nenhuma sobre a própria existência.
De qualquer forma, humor deprimido persistindo por muito tempo é sinal de que algo não vai bem. A família e o apoio social nessas horas é muito importante para a recuperação. Nunca deixe de pedir ajuda ou procurar ajuda nessas condições, a depressão tem cura e pode mudar muitas vidas.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Da família à marginalização • From family to marginalization


O conceito de família não é muito antigo. Faz pouco tempo que essa unidade consanguínea passou a ser vista como uma base indissociável da vida, com a valorização dos papéis sociais de cada integrante, da proteção aos menores, do acompanhamento e fonte de apoio aos membros. Com o advento do capitalismo, das Revoluções Industriais, do avanço da tecnologia, da nova economia mundial, o foco social passou a ser "criar" um homem que desse conta dessa competitividade e que tivesse sucesso no que se empenhasse em fazer, trazendo lucros e resultados. Isso quer dizer que o foco social deixou de ser o de simples subsistência e, se posso chamar, o de tranquilidade e passou a ser uma corrida incessante por produção, por ação direta. Tudo o que gira em torno de um humano bem-sucedido, feliz e produtivo diz respeito ao seguimento desse modelo social estabelecido. Nos últimos anos, tem-se notado uma modificação e heterogeneidade de conceitos acerca de felicidade e auto-realização, e também em torno do conceito de família. Na nova era dita anteriormente, a família passou a assumir um papel importantíssimo na formação do ser. A escola, os médicos e a família eram os agentes fundamentais de "produção" de um homem ativo para a sociedade. Ao mesmo tempo, a família ia adquirindo um molde. Ela passou a ser necessariamente vista como um padrão constituído por uma figura paterna, uma materna e filhos. Foi chamada de família nuclear e até hoje permeia as mentes de muitas pessoas por aí. Não é loucura se dizer que a família nuclear, nos tempos de hoje e até há algum tempo atrás, já não se constitui mais como nuclear. Bases familiares estão sendo construídas das mais diversas formas e estão sendo reconstituídas também. Uma família que pode ter iniciado nuclear, encontra uma separação dos pais, que se casam novamente ou simplesmente dividem os filhos, ou a convivência com eles. Algumas famílias já se formam diferentemente, com mães solteiras, mães adolescentes e avós, pais solteiros e até famílias homossexuais, que têm gerado discussões acerca da adoção para a parentalidade gay. Enfim, não há mais como defender a família nuclear como um modelo ideal. Nas condições culturais e sociais atualmente, é normal ver famílias sendo construídas dessas formas diversas e tendo plena felicidade como qualquer outra.
Ainda falando de família, e tendo-a como unidade fundamental para a formação da criança e do adolescente, podem-se discutir questões sociais de emergência que têm colaborado muito para o advento ou para o crescimento de situações de perigo envolvendo essas crianças e adolescentes. Estou falando das condições de vida a que muitas famílias estão submetidas, trazendo uma questão sistêmica. O convívio dos membros fica alterado, o bem-estar familiar fica alterado, a visão de mundo e a perspectiva de futuro da família ficam anteradas. A miséria, por exemplo, que assombra várias famílias brasileiras, traz a desesperança aos pais de diversas crianças e adolescentes acerca de como educá-las, como dar a elas subsídios para a sobrevivência. Evidenciam-se abandonos, condições cada vez mais precárias de vida, ausência de escolarização para os filhos, o que resulta em uma sobrevivência à margem da sociedade.
Sem uma família, ou sem condições internas que segurem uma criança emocionalmente e fisicamente, o menor "cai na vida". Em que lugar desse país não são vistas crianças nas ruas, em péssimas condições de sobrevivência, pedindo dinheiro, roubando, cheirando cola? Isso é apenas o mínimo do que ocorre com essas pessoas. Uma mente ainda não totalmente estruturada como a de uma criança que mal teve bases familiares para se formar como cidadã, possui ideais de ganho de vida ou de sobrevivência que perpassam a moral ou os direitos alheios. Para uma criança violentada, abusada, abandonada, que está acostumada a ver uma vida de desgraça de perto, matar ou roubar os outros não é nada.
Talvez devêssemos parar para nos perguntar o que essas crianças estão sentindo ou pensando quando batem à nossa janela do carro pedindo alguma ajuda. Talvez a reação ou a resposta mais fácil seja fechar o vidro, continuar olhando pra frente ignorando-as, dizendo que não tem dinheiro, da forma mais ríspida possível. O preconceito e o descompromisso das pessoas com essas questões é um dos fatores que mais colaboram para a continuação dessa exclusão social e desse crescimento da marginalidade. É claro que crianças e adolescentes que se percebem negligenciadas pela sociedade são tomadas por raiva e desespero e tendem a se tornar cada vez mais agressivas ou tendem a se entregar a uma sobrevida, até o dia em que não tiverem mais o que fazer.
Que dia serão feitas políticas públicas que tragam resoluções para essas pessoas? Que dia serão feitas intervenções nas famílias em crise? Que dia poderemos pegar na mão dessas crianças e desses adolescentes e levar para instituições onde terão extremo apoio, escolarização e saúde? Instituições de verdade, que tenham um sistema organizado, bem diferentes das já existentes atualmente.
Acho que há muitas pessoas com idéias e ideais brilhantes por aí, mas estão contempladas por um desamparo aprendido, vendo que todo o resto da sociedade simplesmente não liga ou não quer se responsabilizar por algo do gênero. Antes de tudo, precisávamos ver o próximo como um ser humano semelhante, ver as crianças como seres que precisam de apoio e de instrução e ver que o futuro de um país inteiro, não somente o meu ou o seu futuro, depende de como todas essas pessoas construirão suas vidas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Aptidão mental em concursos públicos • Mental requirements for public services


Não é novidade se falar em exames de aptidão física e mental em Concursos Públicos atualmente. Mas será certo avaliar os candidados em relação a um critério que pode ser completamente enviesado ou subjetivo, em se falando de aptidão mental? Será que está previsto em lei selecionar pessoas com características previamente escolhidas para o exercício de um cargo público específico?

A Constituição Federal, ao dispor sobre os Concursos Públicos, afirma o seguinte:
"Art. 37 - A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
I - os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei;"

Ou segundo o O Estatuto do Servidor Público Federal, lei n.º 8.112, de 11 de dezembro de 1990, em seu art. 5º:
"Art. 5º São requisitos básicos para investidura em cargo público:
VI - aptidão física e mental."


Os exames psicotécnicos, como são chamados, constituem em baterias de testes psicológicos, entrevistas, dinâmicas em grupo entre outras atividades que tragam resultados concretos sobre uma aptidão mental do candidato ao exercício do cargo, seja ele qual for. Esse exame é de realização restrita ao psicólogo, ou estagiários de psicologia supervisionados por psicólogos experientes. Mas o que é teste psicológico? Segundo o Conselho Federal de Psicologia, teste psicológico "se define como sendo uma amostra objetiva e padronizada de um comportamento, cuja função implica em mensurar diferenças entre indivíduos e suas reações, em situações diversas". No contexto de seleção em Concurso Público, o psicotécnico vem a "medir" aspectos que terão extrema importância na carreira. Pode-se, por isso, desclassificar um candidato que apresentou desempenho inquestionável na prova objetiva mas, no exame psicológico, manifestou características de personalidade ou desempenhos intelectuais em níveis insatisfatórios para o previsto para o cargo. Esses exames têm encontrado muita resistência, pelo questionamento acerca da possibilidade de encerrarem em métodos muito subjetivos e incompletos de se avaliar uma pessoa como um todo. É importante se ter em mente que testes psicológicos, sozinhos, não são capazes de predizer totalmente uma candidato. É necessária uma investigação completa e profunda. Outro fato a ser lembrado é que, por lei, nenhum candidato pode ser discriminado ou excluído da possibilidade de exercer um cargo, caso a instituição avaliadora esteja procurando um perfil específico e fechado, para um cargo público. Talvez isso seja permitido em um âmbito empresarial privado. Mas não para um cargo público. A aptidão mental talvez tenha implicações devastadoras aos candidatos que manifestem desequilíbrio ou características extremamente prejudiciais, dependendo das circunstâncias. Mas como saber se os exames foram feitos de forma correta? Como saber se o psicólogo examinador esteve desprovido de estereótipos e preconceitos pessoais ao avaliar os candidatos? Foram asseguradas as condições de isonomia e padronização dos procedimentos?

Ao pesquisar sobre o assunto, a pedido do Thiago, encontrei um relato de um candidato à Academia de Polícia Militar. Pelo dito, fica claro que o psicotécnico para esse cargo avalia pontos como inteligência (em suas diversas esferas), raciocínio verbal, abstrato, atenção concentrada, entre outros e, também, avalia a personalidade do candidato, utilizando testes projetivos, que levantarão características de conduta, personalidade e emocional. Por fim, ainda são citadas características incompatíveis para o exercício do cargo, como atitude defensiva, rebeldia, falta de energia, agressão, temperamento explosivo, entre outros. Uma outra etapa da avaliação seria observar o candidato em grupo, avaliando se ele possui facilidade em atuar em grupo e em desenvolver estratégias para lidar com situações- problema. Já na entrevista individual, o psicólogo finalizaria sua investigação, depurando os dados já obtidos anteriormente.

De forma resumida, o psicotécnico para a Polícia Militar, teoricamente, envolve uma cadeia de avaliações, em âmbitos diferentes, para se chegar a uma conclusão eficiente e segura. O que é muito importante. Alguns aspectos poderiam ser questionados ao analisar essa forma de avaliação. Por exemplo, não consigo parar de pensar que os candidatos se sentem intimidados e completamente inseguros com esse tipo de "prova". Apesar da padronização e isonomia do processo, tenho certeza que os candidatos se sentem inseguros e muito suscetíveis a "fazerem besteira", comportarem-se de forma estranha ou não conseguirem cumprir atividades da melhor maneira possível. Talvez esse desafio também seja uma provação para o candidato que, preparado para lidar com situações- problema, encare o psicotécnico como algo possível de ser resolvido e executado com facilidade.

Felizmente, é dito que, teoricamente, os candidatos que tenham sido desclassificados por um psicotécnico têm todo um aparato profissional para tirarem suas dúvidas e esclarecerem o motivo da desclassificação. Isso acontece de fato?

Voltando aos aspectos avaliados, como definir inteligência e os diversos raciocínios? Como os testes psicológicos podem avaliar e trazerem resultados seguros acerca dessas instâncias?


Em seguida falarei mais sobre isso...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Distúrbios de Aprendizagem e TDAH • Learning Disorders and ADHD

A moda do século é dizer que crianças têm TDAH ou Distúrbios de Aprendizagem, assim como adultos têm Transtorno Bipolar. O indignante é pensar que várias das crianças ou adolescentes que realmente sofrem desses distúrbios ou transtornos não têm acesso à informação ou a testes e consultas que comprovem que o baixo rendimento escolar pode ter uma explicação científica.


Por sorte, tive a oportunidade de fazer parte de um Projeto de Extensão no Hospital Universitário de Brasília. Somos um grupo de quatro estudantes, acompanhadas por um neuropediatra e supervisionadas por uma doutora em Psicologia. No ambulatório de neurologia do hospital, atendemos crianças de 6 a adolescentes de 16 anos e 11 meses, todos com queixas envolvendo dificuldade de aprendizagem, agressividade, memória ruim, agitação extrema e/ou falta de atenção. 99% das crianças que atendemos são da rede pública e poucas delas estudam em escolas que respeitam as regras de atenção particular às crianças que precisam de adaptações curriculares ou adaptações de material ou turmas.


Por um lado, conseguimos perceber que realmente há muitas crianças com dificuldades em aprender ou manter atenção por muito tempo. Mas até que ponto podemos culpá-las por isso? Como não pensar que a escola está tendo problemas em passar o conteúdo? Como não se perguntar se a criança passa por algum tipo de estresse, depressão ou falta de incentivo e estímulo aos estudos? Talvez essa seja a maior dificuldade para profissionais que avaliam o desempenho escolar das crianças. É muito fácil diagnosticá-los com distúrbios e transtornos, se no fundo, em grande parte dos casos, é a escola que está pecando. A avaliação precisa ser feita em um âmbito muito maior do que em um ambulatório de hospital.


Os testes psicológicos por muito tempo foram vistos como negativos e rotuladores. Muitos psicólogos fizeram uso dos testes e tiverem vieses terríveis em seus resultados. Muitos também não divulgaram os resultados para os sujeitos participantes. A verdade é que os testes psicológicos validados têm toda a capacidade de trazerem resultados confiáveis. O WISC-III, que é o teste que utilizamos, avalia a inteligência da criança, em uma perspectiva teórica bem ampla. Apesar de os resultados serem em QI e Índices Fatoriais, há a possibilidade de avaliarmos muitos aspectos do paciente e chegarmos em uma conclusão boa. Mas é realmente indispensável o bom treinamento para examinadores que fizerem o uso do WISC. Há uma responsabilidade enorme na mão dessas pessoas e há pacientes esperando por resultados que podem mudar suas vidas.


Enfim, o papel do psicólogo tem se tornado muito abrangente e não consigo desvincular essa profissão da grande obrigação de zelar eticamente pelo bem estar dos pacientes ou de qualquer pessoa que estiver envolvida com uma intervenção psicológica. Acredito que ainda falta muito investimento acadêmico em oportunidades, estágios, matérias, materiais, etc, que desenvolvam cada vez mais o conhecimento e a habilidade de estudantes de psicologia para a atuação real, para o cara a cara. Acredito também que falta um pouco de interesse nos estudantes em aprofundar seus conhecimentos. Se todos que atuam na área da saúde colaborarem para a prevenção do erro em diagnósticos enviesados, a banalização dos transtornos acaba de uma vez por todas. Estão em falta profissionais que direcionem essas famílias desesperadas a uma resposta aos sintomas dos filhos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Rapport



É intrigante pensar nas magias de um Rapport. O contato inicial, a confiança, o vínculo, diga-se de passagem.


Em um âmbito terapêutico, imagine quantas particularidades e subjetividades não devem fazer parte desse contato inicial, que influenciará a adesão até o final do "tratamento" ?


Uma pessoa vai em busca de ajuda e carrega com ela um universo. Por trás de queixas somáticas, podem existir causas emocionais fortíssimas. É uma caixa sem fundo, que está prestes a ser desmembrada aos poucos. Se essa pessoa nunca teve um ponto de apoio e esse Rapport é idealmente estabelecido, ela encontra ali a sua fortaleza.





Algumas reflexões sobre esse vínculo terapêutico tem me levantado questões que mexem comigo. O fato de precisarmos saber o que vem do outro e o que é parte de nós é um limiar tão fino e tão pequeno, que julgo privilegiados os profissionais que possuem esse controle. Não é por acaso que nos é recomendada a terapia. Quando sabemos exatamente o que nos toca e quando conseguimos deixar isso tudo dentro do armário para sermos apenas profissionais, conseguimos estabelecer um vínculo acolhedor, mas ao mesmo tempo impessoal.





Acho fácil se pensar que, se há uma imagem de psicólogo construída socialmente e há um bom tempo, pacientes se sentem amedrontados em buscar esse tipo de ajuda, seja para fazer uma entrevista diagnóstica, seja para iniciar um tratamento. Por incrível que pareça, há vários "profissionais" por aí que não possuem a habilidade de trazer conforto e aconchego, posicionam-se como os donos da verdade, são arrogantes e preconceituosos. É por isso que as questões pessoais que carregamos conosco devem ficar para trás quando assumimos uma postura profissional e assumimos um dever ético diante dessas pessoas. Já não é fácil passar por esse tipo de experiência, porque muitas vezes não se tem um completo insight do que ocorre, ou quando se tem, está em brando sofrimento. Se não há alguém, em posição de transferência, para amenizar essa ansiedade, que tipo de Rapport será estabelecido? Que tipo de abertura ou conforto o paciente sentirá para abrir sua história?





Antes de tudo, o caráter humano deve se sobressaír nessas relações. Não devemos deixar os limites de lado, porque cada ser humano possui os seus. O contrato inicial também não pode cambalear, pois o vínculo terapêutico depende desse ponto firme, mas o principal instrumento do psicólogo deve estar inteiro e completo: ele mesmo.

domingo, 24 de maio de 2009

Zona de Desenvolvimento Proximal • Zone of proximal development












O que vem primeiro, o desenvolvimento ou a aprendizagem?

Há teóricos que defendem que o desenvolvimento vem antes da aprendizagem. Não que essas teorias estejam erradas, mas será que podemos limitar a aprendizagem a fases separadas da vida? Quero dizer, será que só é possível e saudável aprender a ler quando atingimos os seis anos de idade?

Há teorias que dizem que desenvolvimento e aprendizagem ocorrem de forma concomitante. Há teorias que dizem até que essa relação se dá mais ou menos como uma forma de reflexo. Isso mesmo, reflexo. É como se o ambiente demandasse uma resposta. Por reflexo, damos essa resposta e ela se torna um aprendizado para nós. A partir desse dia, essa resposta foi "internalizada" e ela se dá conforme o desenvolvimento ocorre. Fases diferentes demandam reflexos ou respostas diferentes, o que deixa a prendizagem cada vez mais complexa.

Por último, há a teoria de que desenvolvimento e aprendizagem estão intimamente ligadas, mas o aprendizado é que puxa o desenvolvimento. As teorias de Vygostsky sustentam que o indivíduo não precisa ter alcançado uma fase do desenvolvimento específica para conseguir aprender algo.

Todos temos um desenvolvimento real, que é tudo aquilo que já aprendemos e conseguimos realizar sozinhos. Todos temos também um desenvolvimento potencial. Tudo aquilo que poderemos alcançar de alguma forma e tornar desenvolvimento real um dia. A distância entre ambos foi nomeada como Zona de Desenvolvimento Proximal.

Qualquer ser humano, com o auxílio de mediação, seja de um adulto, seja de outra pessoa um pouco mais experiente, consegue transformar sua experiência social em aprendizado. É disso que a ZDP fala. Essa mediação pode ser fundamental para que essa aprendizagem ocorra. E o melhor disso tudo é que o indivíduo se apropria do que foi aprendido e o transforma em desenvolvimento real.

Voltando tudo isso para o assunto de inclusão, não seria plausível concluir que quando aplicamos rótulos a pessoas com necessidades especiais, estamos ignorando todo o conceito de ZDP? Quando um laudo é feito, detalhando tudo o que o indivíduo é incapaz de fazer, não estamos fadando o sujeito a uma posição estável para o resto da vida? O que a inclusão pode fazer para que isso não ocorra? Será que colocar um aluno de inclusão dentro de uma sala de aula, tendo em vista apenas suas dificuldades e tudo o que ele nunca conseguirá fazer é realmente incluír?


Mais detalhes sobre essa reflexão em breve....

terça-feira, 31 de março de 2009

A inclusão e os portadores de necessidades especiais • The inclusion and special needs


O conceito "portador de necessidades especiais" só passou a ser usado, para designar pessoas que necessitam de uma atenção maior por qualquer limitação ou condição que venha a trazer uma dificuldade em algumas atividades, quando se percebeu que esses portadores possuem alma como todos os seres humanos do mundo. Antigamente, falar em "idiotas" ou "deficientes" ou até mesmo "excepcionais" era falar de uma faixa da população que devia ser isolada dos demais, que era incapacitada de se desenvolver de forma "normal" e, portanto, devia estar aqui por algum castigo, possessão, etc. Esse pessoal incluía pobre, ladrão, prostituta, "degenerados", loucos, "idiotas". Toda a massa excluída e "anormal" da sociedade tinha que ser isolada.
Não é difícil se pensar, portanto, que se não havia uma legislação brasileira que garantisse educação (no mínimo primária) para todos, não havia essa garantia para essa faixa excluída da sociedade. Com o avanço industrial no Brasil, com a demanda de trabalhadores, com a chegada de uma grande população rural para o espaço urbano, foram percebendo a quantidade de analfabetismo existente no país e como a educação pode ser importante para o desenvolvimento de uma sociedade produtiva. Começou um movimento médico higienista e pedagógico que tomava conta tanto dos espaços familiares quanto dos espaços escolares. O ideal era a "produção" de um homem "limpo", num modelo capitalista para suprir as necessidades produtivas do país, um homem ativo, branco, heterossexual, desprovido de problemas mentais e físicos.
Algumas instituições para excepcionais (e esse termo já caiu em desuso) foram abertas no Brasil há muito tempo. Mas as escolas só começaram a admitir essas pessoas depois de muito tempo. Ainda assim, o conceito de segregação continuava ativo: os normais deviam ficar de um lado, os anormais de outro. Essa pedagogia médica influenciou o contexto escolar trazendo um conceito de que já que os portadores de necessidades especiais tinham dificuldades e limitações, eles precisavam de estudos e atenções diferentes, logo, era preciso abrir uma turma especial para eles. Ainda que no mesmo espaço físico que os demais, os portadores de necessidades especiais permaneciam em segregação, em discriminação e exclusão.
Apenas em 1946 foi dada à União a capacidade de criar leis que incluíssem o direito à escolarização. Mas apenas em 1961 foi criada a primeira lei com esse objetivo. Foi a Lei de Diretrizes e Bases que dava o direito à matrícula para todas as crianças no ensino público e gratuito. Desde essa época até 1996, quando foi criada a LDBEN, houve um crescimento acelerado na área da educação, mas o que se percebia era que apenas as instituições privadas lidavam com os casos mais severos de deficiências. As instituições públicas continuavam lidando apenas com os casos mais leves. O movimento educacional, por isso, foi movido muito mais por uma iniciativa privada do que por uma iniciativa pública.
Quando o portador de necessidades especiais passou a ser pauta nos assuntos educacionais, começou o uso do termo "inclusão". Mas o que é inclusão?
Será que apenas tirar o portador de uma classe especial significa incluír? Ou será que colocá-lo dentro de uma turma com todos os tipos de condições e negligenciar atenção especial é inclusão?
Dizer que "todo cidadão tem o direito à educação igual para todos"é uma intenção legal ao se falar em inclusão, mas também ingênua. É claro que portadores de necessidades especiais terão dificuldade em acompanhar plenamente o ritmo da turma, é claro que nem todo material será apropriado para eles, é claro que a estrutura física da instituição não será sempre a adequada. Então educação para todos, sim. Educação igual, não.
A inclusão deve existir tendo consciência de que ainda há diferença. O portador de necessidades especiais deve ter o direito de participar de turmas convencionais, mas também deve ter o direito a um atendimento diferenciado. Os profissionais devem estar capacitados para saberem lidar com a situação, o material deve ser apropriado para cada tipo de deficiência, a estrutura física escolar deve ser diferenciada e, mais que tudo, deve-se manter o pensamento de que ver o portador de necessidades especiais como um portador de limitações é negligenciar suas potencialidades. Rotular um portador como incapaz é dar as costas para a inclusão.
Tive a oportunidade de participar de um curso de extensão no SARAH esse semestre. Nós lidamos com crianças com lesões cerebrais. O projeto 5D, como é chamado, tem por objetivo trazer essas crianças para uma interação em que estão presentes jogos, desafios, estimulação motora e cognitiva. São deixadas de lado as limitações e as faltas e são trazidas as potencialidades. Ali, o propósito é manter igualdade, é promover uma interação em que nós aprendemos com eles e eles aprendem conosco. É uma microcultura composta por toda a equipe, por nós, pelas crianças, pela família e pelas atividades que exercitamos lá.
Essa vivência traz muita reflexão sobre esse conceito de inclusão. Apesar de parecer um sistema de "classe especial", o projeto 5D faz questão de integrar tudo o que está ao redor dessas crianças para não trazer a idéia de que elas estão sendo excluídas, que estão sendo encaradas como um grupo segregado. A filosofia ali dentro é a de esquecer as condições em que eles estão e interagir de forma plena, ajudando quando for necessário, mas entrando lá com o intuito de vencer muitos desses desafios. Isso eu posso chamar de inclusão. E é fascinante entrar no SARAH e perceber que já existe uma estrutura, que parece de outro mundo, exercitando esse conceito que devia ser global.
Acho que, ao falarmos de inclusão, a educação brasileira tem muito a aprender ainda. Mas percebo que as intenções estão num desenvolvimento acelerado e que é muito possível chegar onde se precisa para haver esse exercício.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Esquizofrenia • Schizophrenia



A esquizofrenia é um caso mais grave de psicose cujas origens ainda não estão bem descobertas. Algumas pesquisas apontam para uma possível causa hereditária para a doença. Sabe-se que muitos fatores podem contribuir para o aparecimento da esquizofrenia, tanto sociais, quanto fisiológicos. Mas se a genética contribui para esse caso, provavelmente envolve uma quantidade considerável de genes para a manifestação da doença. Pois se pais esquizofrênicos tivessem filhos e o gene para a doença fosse dominante, necessariamente algum filho teria esquizofrenia. Também se imagina que algumas pessoas podem ter alguns dos genes responsáveis pela esquizofrenia, mas sozinhos não são suficientes para que a doença se manifeste. Essas pessoas podem ser suscetíveis ao desenvolvimento da doença, dependendo de outros fatores. As pesquisas estão avançando para a descoberta e podem chegar a responder qual a origem da doença e como ela ocorre.
A esquizofrenia se manifesta com dois tipos de sintomas. Compreendem-se por sintomas positivos os distúbrios de pensamento, a alucinação e os delírios. Esses sintomas estão relacionados a problemas dopaminérgicos, ou seja, bioquímicos. Embora ainda não se tenha a resposta concreta para o que, exatamente, ocorre com o neurotransmissor ou com os seus receptores, para que os sintomas ocorram. Já os sintomas negativos relacionam-se com uma lesão cerebral, como ausência de "comportamentos normais", monotonia da resposta emocional, pobreza de discurso, incapacidade de vivenciar prazer e isolamento social. Esses sintomas se manifestam também em outras patologias que se caracterizam por lesões cerebrais, principalmente nos lobos frontais.
A hipótese dopaminérgica vem para tentar explicar os sintomas positivos da doença. Muitos medicamentos foram produzidos para diminuirem os sintomas da esquizofrenia e todos eles possuem uma propriedade em comum: bloqueiam os receptores de dopamina, um dos neurotransmissores produzidos pelos neurônios. Um desses medicamentos é a clorpromazina, que alivia os sintomas positivos e traz uma boa mudança na atitude dos pacientes diminuindo ou até exterminando a taxa de delírios e alucinações.
Não se sabe ainda se os problemas dopaminérgicos se dão pela hipersensibilidade dos receptores, pela grande produção de dopamina, pela quantidade muito pequena de receptores ou por qualquer outro motivo. O que se sabe é que a clozapina, uma droga muito utilizada para o tratamento da doença, atua muito mais em receptores D3 e D4, localizados no núcleo acumbens do que nos receptores D2, localizados no neoestriado (algumas drogas atuam nesses receptores). A diferença é que muitas das drogas que atuam nos receptores D2 trazem efeitos colaterais muito parecidos com os da doença de Mal de Parkinson como lentidão dos movimentos, fraqueza e falta de expressão facial. Mas algumas podem ser responsáveis por um problema motor chamado discinesia tardia, que se caracteriza por um retardo dos movimentos, com tiques faciais, protusão da lingua, franzimento dos lábios e até contorção das mãos e do tronco em alguns casos.
Essa doença é instigante e ao mesmo tempo assustadora. Como deve ser ter alucinações auditivas ou delírios tão fortes a ponto de sentir que há alguém te perseguindo o tempo todo?
De onde ela vem e por que algumas pessoas são suscetíveis aos sintomas mais fortes da doença?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Enquanto dormimos • While you sleep


Quem nunca ficou impressionado com as imagens "vistas" em um sonho durante uma noite de sono? Às vezes essas imagens parecem tão reais, que passamos o dia todo pensando nisso e até nos amedrontamos quando sonhamos com acontecimentos nada esperados, como um tipo de previsão ou sonho intuitivo.

A verdade é que pouco se sabe sobre os segredos dos sonhos e do próprio sono. Onde será que ele se forma? Quais mecanismos cerebrais estão envolvidos na seleção de imagens oníricas? Por que elas parecem tão reais?

Freud já havia teorizado acerca dos sonhos afirmando serem "restos diurnos", ou mais especificamente, realizações de desejos não realizados na vigília. Até mesmo os sonhos mais assustadores podem carregar consigo conteúdos desejáveis e recalcados. Um grande mistério.

Mas Freud não estava totalmente equivocado. Hoje se sabe, pelas neurociências, que o sono é fundamental para a reorganização de informações adquiridas durante a vigília. Essas informações são "recebidas" quando estamos acordados e são organizadas e armazenadas quando dormimos, guardando as mais importantes e descartando as de menor importância. Antigamente acreditava-se que ao dormir, o cérebro ficava completamente paralisado. Pelo contrário, ele permanece ativo, até mesmo no sono profundo e no REM, em que ocorrem movimentações oculares rápidas e em que ocorrem os sonhos.

Outro fator interessante descoberto é que, durante o sono, áreas específicas cerebrais são estimuladas dependendo do que se está imaginando enquanto dormimos. Quer dizer, mesmo em paralisia muscular, se estamos sonhando com uma corrida, ou com uma briga com alguém, áreas cerebrais motoras estão sendo estimuladas.

O sono de ondas lentas se intercala com o sono REM e, em uma noite de oito horas de sono, uma pessoa pode ter o descanso mental de que precisa. O sono é fundamental não somente para o repouso e descanso, mas para a assimilação de aprendizagens, codificação da memória e desenvolvimento cognitivo.

O mistério, no entanto, se edifica em torno da pergunta "por que armazenamos algumas informações e outras são descartadas?".