terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O mal que habita em todos nós: reflexão sobre a psicopatia • The evil that dwells in us: reflecting on the psychopathy




Quantas vezes não nos deparamos com notícias escandalosas sobre crimes brutais cometidos das mais variadas maneiras, contra as mais variadas pessoas? Crimes que geram desconforto nacional e internacional, que abrem discussões em diversas esferas, magoam muita gente, impressionam, chocam, causam repúdio, julgamentos, movimentos de luta, perdas de sono...Surgem perguntas perturbadoras que não possuem respostas imediatas, como por que aquela pessoa foi capaz de fazer tal atrocidade, o que a levou a fazer isso, por que aquela vítima sofreu e qual a melhor vingança a ser feita.
Por outro lado, longe de um acontecimento que choca uma nação inteira, estão movimentos de divulgação da violência de uma maneira massiva, manifestados por veículos de comum acesso, perpassando nossos cotidianos sem ao menos termos noção e reflexão sobre eles. Querendo ou não, é através desses veículos que formamos opiniões, adquirimos uma parte de nossos conhecimentos, fundamos valores e aprendemos com experiências alheias. É também a partir deles que organizamos pensamentos hostis todas as vezes em que vemos notícias como as mencionadas anteriormente.
O ser humano é movido por violência. Ela está dentro de nós e é assim que ela é manifestada. Seja sentindo prazer ao assistir lutas pela televisão, ou ao praticá-las na vida real, seja indo ao cinema assistir sequências de filmes sangrentos, seja acompanhando o julgamento de uma pessoa que aparentemente merece todo o mal do mundo por ter feito mal a outra pessoa. De uma maneira ou de outra, aprendemos a ser assertivos desde pequenos, convivemos com várias fontes de agressão e violência, nos mais variados graus, e de certa forma somos capazes até de termos diversão a partir dela. Há até como falarmos da violência como uma característica inata, temos a capacidade de usá-la para nos defendermos, para defendermos um filho ou um familiar, observamos sua presença em comportamentos de outras espécies, ela está presente no nosso cotidiano, em nossas ações e em nossos pensamentos, de um jeito ou de outro.
A partir disso, é possível também se pensar acerca das capacidades que cada indivíduo possui de controlar sua própria violência, além do que essa violência significa para cada um, como ela se desenvolveu e em que esteve envolvida ao longo das experiências. Cada um de nós possui uma formação de personalidade e tendências desde o nascimento, nossos laços familiares, nossas convivências e aprendizados, nossas impressões e experiências boas e ruins, significações que fazemos acerca de nós mesmos e dos outros, formações de identidade, identificações, todos esses processos estão envolvidos intimamente com a forma como construímos esse conceito em nossa mente. Há crianças que vivenciam os mais variados tratamentos, desde a negligência e a violência explícita, física, emocional e sexual, até a superproteção e o fornecimento de um senso de onipotência. Se tudo isso acontece e favorece a formação de um ser em crescimento, além de basear significações que acompanham cada passo ao longo da vida, é plausível se imaginar que vários indivíduos possuem universos de experiências, sensações e sentimentos que organizarão todas as suas condutas dali para frente e isso pode estar completamente ligado ao controle emocional e à ação violenta.
Ao se falar em Psicopatia ou Transtorno de Personalidade Antissocial, há várias referências teóricas que trazem respostas prontas e fechadas sobre o tema. As mais utilizadas no meio médico e psicológico estão caracterizadas em manuais diagnósticos que possuem pouquíssima informação detalhada sobre cada sintoma procurado, o que faz com que a lista de critérios diagnósticos possam ser facilmente encaixados em vários indivíduos, trazendo vieses e banalizações, além limitações para o campo profissional. Exemplos de profissionais da saúde que seguem fielmente esses manuais há aos montes, que publicam livros sensacionalistas, dedicando páginas e mais páginas a um detalhamento de traços negativos e pesados sobre pessoas que portam tais transtornos. Esses meios de informação também colaboram para as reações tipicamente hostis que percebemos socialmente, cada vez que um caso ou acontecimento do gênero é divulgado.
Por trás de uma pessoa que comete um crime, está uma subjetividade gigantesca, composta por diversos eventos passados que colaboraram para a formação de seu caráter. Por mais que nós, psicólogos, precisemos usar as convenções estatísticas para Transtornos Mentais e de Personalidade para guiarmos nossas ações profissionais no trato desses fenômenos, há uma realidade complexa vital em cada um desses casos que impede que se faça uma separação desses indivíduos em relação aos outros e desabilita a possibilidade de se descrever seus atos e sua moral com parágrafos que acabam por denegrir suas reputações, como se pudéssemos reduzir todo um ser e uma vida a uma figura animalesca, imperfeita, monstra e fria, capaz de causar o mal para o próximo.
Ao longo desse semestre precisei desenvolver leituras e estudos acerca do tema e precisei fazer uma vasta e longa avaliação de personalidade de um paciente de um grupo de atendimento do qual faço parte na minha universidade, para finalizar uma parte do meu curso e poder finalmente ter meu título de Bacharel. É impressionante encontrar que por trás de um rótulo que facilmente existiria em qualquer outro local de atendimento, há uma configuração mental tão específica e tão complexa, que só as ferramentas que tive a oportunidade de utilizar possibilitariam essa descoberta (Método de Rorschach). Uma entrevista diagnóstica crua, que busca os sintomas ridiculamente traçados nos manuais diagnósticos ignora a subjetividade de cada  sinal demonstrado pelo indivíduo e automaticamente negligencia o que realmente importa. A avaliação da dinâmica do indivíduo, por outro lado, compreende toda a sua estrutura, suas tendências, suas potenciais emoções vividas, pontos de recursos e demandas, traços patológicos ou não.
Essa pessoa avaliada traz consigo um histórico de extremo sofrimento e dor, com uma vivência confusa de suas emoções e um evidente significado em torno das relações interpessoais e emoções que foi adquirido ao longo de suas próprias experiências. O que mais se poderia esperar de uma pessoa que provavelmente vivenciou alguma violência extrema quando mais nova, não teve a oportunidade de resignificá-la e possivelmente continuou imersa em um contexto que favoreceu a formação de um conceito um tanto distorcido acerca da verdadeira maneira de se aproximar de outra pessoa, de como manter relações pacíficas e de como controlar as emoções? Nessa configuração, é totalmente plausível se esperar que haja reações violentas e destrutíveis, pois essa foi a linguagem adquirida ainda em tenra idade e há um sofrimento muito intenso envolvido, que marca fortemente e definitivamente a existência daquela pessoa, influenciando sua auto-imagem ao longo de sua vida. 
O objetivo aqui não é manifestar opiniões favoráveis às atitudes violentas e criminosas que vemos frequentemente na mídia. Sabemos das obrigações de cada cidadão e sabemos que temos leis a cumprir e valores morais e manter e passar de geração para geração. Para toda ação maléfica que vai de encontro com a lei deve existir uma contrapartida justa, uma punição adequada e uma reestruturação e recuperação do ser que errou. Mas é preciso questionar e ir mais além. Por trás daquele monstro que friamente violentou uma mulher, existe um ser humano que está em intenso sofrimento e precisa de atenção.
Afinal de contas, ao sermos notificados de crimes cruéis como esses, damos o direito a nós mesmos de pensarmos de forma agressiva e de querermos uma vingança imediata. É comum ver movimentos de todas as partes, com julgamentos, xingamentos, motivações destrutivas diversas. Estamos pensando e agindo como a pessoa que cometeu o crime e nem ao menos estamos vendo. Não porque também somos monstros e porque somos insensíveis para percebermos isso. Mas porque também somos seres humanos, que legitimamente ou ilegitimamente podemos manifestar problemas com nossas tolerâncias e emoções.
É possível encontrarmos as respostas para aquelas várias perguntas se olharmos para dentro de nós mesmos e percebermos que somos todos muito parecidos, cada um em sua especificidade e riqueza interna.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Piaget e Consciência Moral: por que estamos nos violentando? • Piaget and Moral Conscience: why are we violating ourselves?



       
            Para Piaget (1932), as regras morais se transmitem de geração para geração e se mantêm graças ao respeito que os indivíduos mantêm por ela, ou seja, a criança dificilmente desenvolverá uma consciência autônoma, ela terá o apoio e aprendizado de personalidades superiores. Esses deveres se tornam obrigatórios porque emanaram de indivíduos respeitados, não por causa de seus conteúdos específicos.  Piaget separou as interações sociais em dois tipos: a coação social se caracteriza por uma relação entre dois ou mais indivíduos, em que se haja um elemento de autoridade ou prestígio. A cooperação social se caracteriza por uma relação entre dois ou mais indivíduos, que acreditam serem similares, ou seja,  não há elementos de autoridade entre eles, são relações entre pares. O respeito unilateral é a primeira forma de respeito que surge no desenvolvimento do ser humano, e se constitui nas relações de coação social, como relaçoes estabelecidas entre crianças e seus pais, ou com outros adultos significativos para elas. A criança atribui um grande valor às normas, opiniões e valores desses adultos, imitando-os e adotando-os (Piaget, 1941).
             É a partir do respeito unilateral que outras formas de respeito são possíveis, como o respeito mútuo, quando os indivíduos se atribuem reciprocamente valores equivalentes, como podem ser vistos em relações sociais cooperativas, momento em que o indivíduo percebe o potencial para mutação das regras e percebe que ele mesmo pode construír seus valores, dando início à Autonomia Moral. O indivíduo se torna capaz de refletir sobre as hipóteses e de estabelecer ideais de igualdade, justiça, solidariedade e liberdade, que poderão permear a consciência para suas ações. É a partir do respeito mútuo entre personalidades autônomas que seria possível a diversidade.
            No estudo feito por Larissa Machado de Souza Barroso (2000), que caracterizou sua dissertação de mestrado, e tem como título: As ideias das crianças e dos adolescentes sobre seus direitos: um estudo evolutivo à luz da teria Piagetiana, é possível se estabelecerem relações entre seus achados e a teoria de Piaget sobre a Consciência Moral, além de ser possível analisar, também relacionalmente, alguns conceitos fundamentais propostos por ele. Em seu trabalho, Barroso (2000) analisou como crianças e adolescentes de variadas idades interpretavam situações diversas que questionam os Direitos Humanos e quais soluções eram propostas por eles. Observou-se que crianças muito pequenas utilizavam-se de situações muito concretas, presentes em seu cotidiano, para justificar seus motivos para interpretar as situações como erradas, além de proporem como solução estratégias muito situacionais e imediatas, não conseguindo perceber as consequências, também prejudiciais, que suas soluções poderiam gerar. Como por exemplo, em uma situação de maus tratos exposta, crianças muito novas conseguiam conceber como uma situação muito possível de ocorrer, inclusive relatando experiências próprias vivenciadas, e davam como solução estratégias como “fugir de casa” ou “conversar com a mãe” ou com a vizinha que escutava o choro da criança ao ser violentada pelo pai. Crianças de idade mais avançada, por outro lado, tinham uma maior capacidade argumentativa, relatavam experiências próprias e outras vistas em meios de comunicação para justificarem suas análises e conseguiram propor estratégias mais conscientes e abrangentes de solução. Ou seja, foi possível perceber uma maior capacidade de notar que as situações caracterizavam um descumprimento de deveres, ou obrigações,  o que poderia ser teorizado por Piaget como o início de uma Autonomia Moral. Existe a capacidade de perceber como atitudes erradas, que vão contra alguma regra, propondo soluções que fogem do imediatamente perceptível, como as crianças mais novas. Já para os adolescentes, um terceiro nível de compreensão das situações, a idéia de direito está mais bem consolidada, separando direitos de deveres e apontando formas mais eficazes de defesa aos casos de violação, são capazes de observarem as necessidades coletivas, ao invés da meramente individual, além de questionarem ideais estabelecidos, como os de justiça, igualdade, respeito, etc., caracterizando o que Piaget chamaria de uma Consicência Moral bem consolidada.
            Tendo em vista o conceito de adaptação proposto por Piaget, em que no processo de assimilação, o indivíduo se utiliza dos recursos internos já existentes para o retorno ao equilíbrio, é possível se pensar que as crianças mais novas, analisadas por Barroso (2000), além de não terem uma Consciência Moral muito bem consolidada, possuem ainda um repertório pequeno de recursos e estruturas mentais para lidar com novas situações, como as propostas pelo estudo feito. É a partir disso que crianças pequenas, situadas na fase sensório-motor, podem entrar no processo de acomodação, com a consolidação de novas estratégias e mecanismos de enfrentamento e, consequentemente, retornarem ao equilíbrio. Já as crianças citadas como mais capazes de analisar a situação de forma mais geral, tendo consciência dos deveres e conseguindo apontar como soluções, estratégias menos focadas na resolução imediata e concreta, pode-se dizer que se situam na fase das operações concretas, com um crescente incremento do pensamento lógico, com assimilação menos egocêntrica e mais realista, caracterizada por atitudes mais críticas. O terceiro nível, comporto por adolescentes, compreende a fase das operações formais, momento em que é possível formar esquemas conceituais mais abstratos, pautados em ideais de amor, justiça, democracia, etc, e realizar operações mentais formalmente mais lógicas. É possível questionar sistemas sociais e propor novos códigos de conduta (Rappaport, 1981).
            Se o Bullying envolve atos, palavras ou comportamentos prejudiciais, intencionais e repetitivos direcionados a uma pessoa, causados por uma ou mais pessoas, com o objetivo de humilhar, expor ao ridículo, acusar, excluir e prejudicar (Middelton-Moz & Zawadski, 2007), é possível se concluir que todos esses comportamentos caracterizam um descumprimento aos Direitos Humanos, um corte ao respeito mútuo e uma má consolidação da Consciência Moral. Se essa forma de intimidação está presente em condutas nas mais variadas faixas etárias e pode ser vista também em outros contextos que não somente o escolar, pergunta-se: o que acontece no processo de aquisição da Autonomia Moral, envolvendo todas as fases de assimilação e o consequente posicionamento em etapas piagetianas, para que a sensibilidade a esses ideias e valores esteja prejudicado? Se o indivíduo adquire sua inteligência e suas capacidades ao longo de uma vasta interação social (Rappaport, 1981), e, além disso, desenvolve outras formas de respeito a partir do respeito unilateral em relações sociais de coação (com os pais ou adultos significativos), em que tipo de relações esse mesmo indivíduo está inserido ao longo de seu desenvolvimento, que não estão formando ideais mais fortes, abrindo possibilidades para comportamentos agressivos e violentos, que desrespeitam os direitos do próximo? Se o Bullying escolar envolve crianças ainda na fase das operações concretas e que portanto, ainda podem passar por etapas de novas assimilações, é possível se pensar que uma intervenção eficaz pode trazer novas significações e soluções para essas crianças, formando novos valores e compreendendo melhor as noções de direitos e deveres, inclusive de respeito mútuo. E se o Bullying escolar envolve adolescentes que potencialmente se situam na fase das operações formais? Como é possível provocar modificações na visão crítica e em códigos de conduta já estabelecidos, para que atitudes agressivas e violentas não voltem a ocorrer? 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma abordagem centrada no aluno, estratégia para prevenção da violência escolar- análise e reflexão da teoria de Carl R. Rogers. • The student-centered learning, a strategy to prevent Bullying.






            O presente artigo tem por objetivo analisar a obra de Carl R. Rogers intitulada “Tornar-se pessoa”, promovendo reflexões e levantando estratégias a um ensino voltado para a liberdade do aluno, focada em sua experiência e aberta ao questionamento pessoal. Uma maneira a permitir o crescimento efetivo, individual e em grupo, promovendo a consciência e compreensão mútuas e prevenindo a soberania da violência e competição.

            Rogers inicia sua obra expondo experiências pessoais que o levaram a teorizar e colocar em prática sua visão de processo terapêutico ideal e, posteriormente, construiu associações com o contexto escolar, transpondo a terapia focada no cliente ao ensino focado no aluno e, felizmente, observou os mesmos excelentes e duradouros resultados. Antes de tudo, a teoria rogeriana se pauta no objetivo de dar liberdade ao cliente ou ao aluno de se expressar conforme sua própria consciência de sofrimento e/ou demanda, constituindo em uma técnica que não visa somente a exposição ativa de um “detentor do saber” a um aluno/cliente que se posiciona passivamente e absorve tudo o que lhe é imposto. Ao contrário, a técnica diz respeito a abrir um espaço para que seja comunicado pelo aluno ou cliente o assunto a ser conversado e consequentemente a direção do movimento, tanto no processo terapêutico, quanto no processo de ensino.

            A partir dessa perspectiva, também é possível se pensar na enorme contribuição que o olhar compreensivo possui sobre as interações interpessoais. A postura de um professor diante do aluno, caracterizada por uma compreensão e escuta paciente de suas demandas e experiências possibilita que o aluno se sinta reconhecido e acolhido da melhor maneira e, sentindo-se compreendido, é possível que se modifique. Quanto mais um indivíduo é reconhecido, maior a tendência de abandonar as falsas defesas que criou para enfrentar a vida e maior sua tendência a mover para frente. Essa necessidade de se defender por vezes pode ser caracterizada por comportamentos reativos, agressivos, antissociais e prejudiciais.
             Relações pautadas na compreensão e aceitação da subjetividade do outro também podem ser observadas em situações familiares. Atitudes dos pais para com os filhos denominadas “atitudes de aceitação democrática”, caracterizam-se por relações de igual para igual, realizadas a partir do afeto, e demonstram resultar em desenvolvimento intelectual acelerado por parte dos filhos, além de maior originalidade, maior segurança e controle emocional. Por outro lado, quando os pais adotam “atitudes de rejeição ativa”, surgem resultados como leves retardamentos do desenvolvimento intelectual das crianças, utilização pobre de suas capacidades, instabilidade emocional e comportamentos de rebeldia, agressividade e agitação.
            Tendo em vista os inúmeros efeitos colaterais comportamentais que uma relação baseada na autoridade pode promover, é importante analisar as estratégias apontadas por Rogers como saídas para uma relação de ajuda. Entre elas, ele detalha sobre a importância de se apresentar como verdadeiramente é, para construção de vínculos baseados na confiança. Quando se demonstra e expõe verdadeiramente o que se é, o terapeuta, pai ou professor se posiciona por inteiro e proporciona a confiança. Outra saída diz respeito à já citada importância de se estabelecer uma relação demonstrada no reconhecimento de quem o outro é e do que já viveu e traz consigo, pois assim demonstram-se sentimentos positivos e ao mesmo tempo fortalece-se a confiança. Assim também é possível se demonstrar à pessoa que não há um juízo de valor nessa relação, o que permitirá que ela mesma perceba que o julgamento reside dentro de si mesma. Por último, mas não menos importante, Rogers detalha a importância de se ter em mente que não é produtivo perceber o cliente/paciente/filho como um indivíduo rígido e fechado em um conceito pré-determinado, no sentido de que é preciso pensar nas potencialidades e na possibilidade de que suas condições atuais sejam mutáveis e passíveis de transformações.
            A aprendizagem significativa, como fruto da terapia focada no cliente e no ensino focado no aluno, para Rogers, é aquela que provoca uma modificação, seja no comportamento do indivíduo, na orientação da ação futura que escolhe ou nas suas atitudes e na sua personalidade. É possível se observar aprendizagens como percepções diferentes sobre si mesmo, aceitação de sentimentos, aumento da auto-confiança e autonomia, flexibilidade e diminuição da rigidez nas percepções, adoção de objetivos mais realistas, comportamentos mais maduros, modificação de comportamentos mal adaptados e maior aceitação dos outros. Estudantes que estão em maior contato com os problemas da vida procuram aprender, desejam crescer e descobrir, esperam dominar e querem criar. Todas essas aprendizagens e mudanças puderam ser relatadas por um caso exposto na obra “Tornar-se pessoa” em que Samuel Tenenbraum pôde detalhar sua experiência primeiramente como aluno de Rogers, a experimentar de perto a teoria e técnica humanista e, posteriormente, demonstrando sua eficiência em suas próprias práticas como professor em sala de aula.
            Por fim, Rogers fala sobre os resultados da terapia focada no cliente para a vivência intrafamiliar. Entre eles, está o aumento da compreensão sobre si mesmo e o consequente aumento da compreensão do próximo, em suas características e individualidades. Ao mesmo tempo, quando o indivíduo se torna capaz de entender seus próprios sofrimentos, toda a angústica, raiva e agressividade perde seu poder explosivo e é possível questioná-los e ressignificá-los, inclusive em relações que os provocam.
            Tendo em vista a violência e a agressividade recentemente vivenciadas dentro do contexto escolar e buscando uma estratégia que facilite a prevenção e desestruturação disso, a teoria rogeriana demonstra que ter o olhar voltado para o indivíduo e suas experiências, de maneira compreensiva e aberta para as mudanças graduais e duradouras, tende a trazer bons resultados que podem se refletir em outros contextos e possibilitarem novas vivências e novas decisões para o futuro. Se há um espaço aberto para que o aluno converse sobre suas angústias, muitas vezes vivenciada fora da escola, mas trazidas para suas relações escolares, e este aluno percebe estar sendo acolhido com compreensão e empatia, ele mesmo poderá encontrar os caminhos para sua modificação, buscando novas estratégias, tornando menos rígidas suas percepções e podendo, inclusive, refletir essas mudanças no contexto familiar. Escolas que adotem a filosofia humanista podem contar com um método mais aberto às subjetividades de cada aluno e, em suas dinâmicas em sala de aula, podem promover maior aceitação mútua às individualidades de cada aluno, construindo conceitos que vão desde o respeito ao próximo, passando pela compreensão da demanda de cada um e chegando à motivação de ajudar o outro em seu próprio conhecimento. Diferente de uma educação pautada nas relações hierárquicas e autoritárias, o ensino focado no aluno, de base puramente humanista, parece abrir portas para uma estruturação do ser de forma mais consciente e pacífica, gerando indivíduos que, desde cedo, percebem o próximo como um outro com próprias demandas e especificidades, exercitando a tolerância e a empatia e, ao mesmo tempo, prevenindo situações de violência e exclusão.     

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Os efeitos da estratégia educacional autoritária sobre os comportamentos de crianças e adolescentes e a possibilidade de ocorrência do Bullying- Uma reflexão Behaviorista • The effects of an authoritarian educational strategy on the behaviors of children and adolescents: a possibility of Bullying



          




O pressuposto da teoria de Skinner é explicar o comportamento humano como resultado da influência de estímulos presentes no meio. A compreensão acerca da forma como esses estímulos agem sobre os comportamentos é importante, pois assim se torna possível fazer modificações nos estímulos, provocando mudanças comportamentais desejáveis. O comportamento opera sobre o meio e por ele é reforçado ou punido. A frequência do comportamento depende dos estímulos que o seguem e também de seus potenciais reforçadores ou aversivos à pessoa que os elicia. Um estímulo reforçador, por exemplo, age diretamente sobre o comportamento, possibilitando uma nova ocorrência e assim, aumentando sua frequência e probabilidade de eliciamento. Por exemplo, no contexto da escola, um aluno que estuda adequadamente para uma prova pode ser reforçado pela consequente boa nota na avaliação, aumentando a probabilidade de que ele estude com qualidade mais vezes. Uma punição, por outro lado, age diretamente sobre um comportamento indesejável de forma aversiva, limitando-o e/ou cessando-o por completo. Por exemplo, um aluno que tem más condutas na escola pode ser punido pelo professor com algum castigo que seja suficientemente aversivo e assim seus comportamentos poderiam ter suas frequências diminuídas. O que se observa, no entanto, é que a punição possui alguns efeitos específicos: a) inibe temporariamente o comportamento, podendo perder seu potencial avesivo com o tempo; b) pode ter seus efeitos estendidos a outros comportamentos vinculados ou próximos ao comportamento punido, como diminuir a frequência com que um aluno conversa em sala de aula, mas diminuir também a frequência da fala do aluno, mesmo quando ela é desejada em outros contextos; e c)pode exercer sua função apenas quando a contingência de punição ou o agente punidor estiverem próximos, por exemplo, quando a criança é punida por um professor por eliciar comportamentos indesejáveis e, na ausência desse professor (agente punidor), os mesmos comportamentos ressurgem  (Ries, 2001).
            No contexto escolar, a autoridade está intimamente ligada à (in)disciplina, ocorrendo porque o projeto pedagógico prevê relações assimétricas de poder, no qual o docente exerce autoridade sobre o aluno (De La Taille, 1999). A maneira como o professor exerce sua autoridade em sala, de forma autoritária ou liberal, é vital para o estabelecimento de situações de disciplina em sua turma (Araújo, 1999). No entanto, autoridade vem sendo tradicionalmente confundida com autoritarismo e o aluno se cala por temer as punições e ameaças do professor, enfraquecendo, progressivamente, a relação professor aluno(Novais, 2004). Para Lobrot (1977), a autoridade se contrapõe à liberdade,visando se impor ao outro idéias, crenças e hábitos desejáveis. Isso seria possível a partir de estratégias repressivas, que envolvem a coerção, pelo direcionamento através de ameaças e recompensas. A autonomia de pensamento e ação acaba sendo fruto da internalização de regras e deveres que são vivenciadas diariamente no processo pedagógico, por intermédio da autoridade docente (Davis &Luna, 1991). Essa coerção cria um clima emocional em sala que pode gerar hostilidade, ressentimento, passividade e sentimentos de inferioridade, que dificultam ainda mais o trabalho pedagógico (Furlani, 2003), o professor se volta aos alunos indisciplinados, promovendo a punição pelos comportamentos indesejáveis, mas não favorece o desempenho adequado do aluno. Diante dessa situação, algumas respostas podem ser obervadas por parte dos alunos, entre elas a revolta, como uma reação contra o autoritarismo da escola, manifestando comportamentos que vão desde a indisciplina até a “delinquência” (Novais, 2004).
            O controle comportamental do tipo coercitivo, para influenciar comportamentos,  é feito pelo uso de reforço negativo ou punição. Reforço negativo é uma estratégia de reforçamento que tem o objetivo de aumentar um comportamento visado, retirando-se um estímulo aversivo para o indivíduo. Por exemplo, se a professora quer que o aluno faça silêncio e preste atenção na aula, pode tentar controlar seu comportamento oferecendo a possibilidade de ele não precisar fazer o dever de casa, que a priori teria uma significação negativa para o aluno. A punição, positiva ou negativa, tem o objetivo de diminuir a frequência de um comportamento, podendo retirar um estímulo agradável para o indivíduo (negativa) ou inserindo um estímulo aversivo (positiva) para o indivíduo (Sidman, 1995). Para Marinho (1999), crianças e adolescentes expostos ao controle de comportamento por meio da coerção podem manifestar comportamentos antissociais, com características agressivas e rebeldes, além de défict em habilidades sociais, dificuldades escolares, ressentimento e baixa habilidade para solucionar problemas. Para Sidman (1995), crianças e adolescentes educadas por meio da coerção tendem a reproduzir esse padrão punitivo com outras pessoas e em outros contextos, especialmente quando se tornam adultos. Além disso, pessoas expostas ao controle comportamental tendem a encontrar estratégias de evitação, como a fuga e a esquiva, que não proporcionam aprendizado, apenas paralizam o sujeito, que passa a desenvolver dificuldades de se expor a novas contingências, podendo retrair-se e manifestar dificuldade em relacionamento social (Namo & Banaco, 1999).

            Tendo em vista a definição de Bullying proposta por Fante (2005), que o caracteriza como uma série de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, direcionadas a um aluno ou um grupo e produzindo dor, sofrimento, angústia e retraimento social, e ainda, tendo em vista que esse contexto de intimidação ainda não possui apenas uma explicação teórica para sua origem e ocorrência, questiona-se: seria possível que alunos que vivenciam frequentemente contingências punidoras como forma educativa, na escola e na família, estejam reproduzindo esses comportamentos em outros contextos, como uma reação ao aprendizado baseado na coerção (Sidman, 1995)? Se o controle de comportamentos caracterizado pela coerção é responsável por alta ocorrência de comportamentos reativos agressivos, violentos e antissociais (Marinho,1999), é possível traçar uma alta probabilidade de alunos agressores terem vivenciado algum tipo de violência, doméstica ou escolar, caracterizada pelo uso de ameaça, controle e punição, como igualmente demonstra o estudo de Pinheiro e Williams (2009).
            Pais e professores precisam estar mais atentos aos efeitos de uma educação baseada no controle coercitivo, a fim de se evitar consequências e significações, por partes de crianças e adolescentes, que os levem a se comportar de maneira agressiva e violenta em outros contextos, principalmente quando adultos, repassando essas condutas de forma transgeracional. Uma alternativa ao uso da punição seria a utilização do reforço, positivo e/ou negativo, em casa e na escola. Os esquemas reforçadores promovem o aprendizado do indivíduo e a mudança do comportamento de uma maneira pacífica, não utilizando a linguagem da ameaça, o que possibilitaria o crescimento individual e o conhecimento de si (Souza, 2009), sem estar exposto a medo e aversão, que podem ser causados pelo uso contínuo da punição, e sem precisarem utilizar estratégias de fuga e esquiva, que não proporcionam um aprendizado duradouro. 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Violência, Bullying, Família e Escola • Violence, Bullying, Family and School



         

   A família e a escola, como agentes primários de socialização (Ferreira, 1997), têm função importantíssima na construção dos conceitos que envolvem boa convivência entre pares, responsabilidades e deveres, assim como o fortalecimento de valores morais e éticos, como o respeito mútuo, a empatia, a compreensão e a solidariedade, não somente entre os membros da família e alunos, mas entre cidadãos que compõem uma sociedade ampla.
            Tendo a família como a base de formação do ser, é compreensível delegar a ela uma enorme responsabilidade de servir-se de exemplo para os filhos, uma vez que dentro dela é possível aprender leis de convívio perpassadas pelas gerações, valores e responsabilidades, questionamentos e reflexões. Resposabilidades essas que remetem à Teoria da Aprendizagem Social (Bandura, 1973), que fala justamente da facilidade que a criança encontra em aprender condutas e comportamentos tendo como base as atitudes observadas dentro da própria família, principalmente entre as figuras maternas e paternas. A partir dessa teoria também é possível compreender os motivos pelos quais várias crianças se comportam de forma agressiva em contextos externos à convivência familiar, principalmente na escola. Vários pesquisadores têm encontrado uma íntima relação entre violência doméstica, no âmbito psicológico, físico e moral, e condutas agressivas em crianças na escola, participando como agressoras ou alvos/autoras de agressão (Pepler, Catallo & Moore, 2000).
            A criança, parte integrante da família, vivencia a agressão doméstica de forma direta, sendo alvo da agressão, ou de forma indireta, presenciando atos de violência entre os pais. De amba as formas, prejuízos à criança podem ser gerados (Jouriles, McDonald, Norwood, Ezell, 2001), como manifestações de comportamentos agressivos e até o desenvolvimento de Transtornos de Conduta que, segundo o DSM-IV-TR são caracterizados por um padrão persistente de comportamento que viola os direitos básicos dos outros e as normas ou regras sociais importantes e apropriadas à idade. Dentre os vários motivos que levam a um episódio de violência doméstica, há um consenso na literatura de que problemas de saúde dos pais, dentre eles o abuso de drogas e alcool, são fatores estressores que propiciam o desencademento desse tipo de violência (Caminha, 1999). Webster- Stratton (1997) afirma que mães com depressão, pais alcoolistas e comportamentos agressivos e anti-sociais dos pais implicam em fatores de risco.           
            A relação entre a participação das crianças, de forma direta ou indireta, na violência doméstica e a consequente manifestação de comportamentos agressivos na escola foram evidenciados pelos experimentos de Maldonado & Williams (2005) e Pinheiro e Williams (2009). No primeiro estudo, foram entrevistadas 28 mães, sendo 14 de crianças agressivas e 14 de crianças não agressivas, estudantes de uma escola pública de São Paulo. Das 14 primeiras,  28.6 % relataram a ocorrência de “violência em casa”, enquanto as segundas não relataram. Quanto à “violência contra a criança”, 42.9% das primeiras mães relataram a ocorrência, em relação aos 14.3% das mães  do segundo grupo.
            O segundo estudo explorou o conceito de Bullying e teve o objetivo de relacionar a violência doméstica com a participação, de alguma forma, em práticas de intimidação (Bullying) escolar. Ele é caracterizado por um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, ocorrendo sem uma motivação evidente, praticado por um aluno ou um grupo, contra um aluno ou vários, causando dor, sofrimento e angústia. Esses atos compreendem insultos, intimidações, apelidos cruéis, além de danos físicos, morais e materiais, entre outros (Fante, 2005). Alguns autores dividem esse tipo de violência em três categorias: a intencionalidade do ato, a prolongação no tempo e o desequilíbrio de poder físico, psicológico ou social entre os envolvidos. Pinheiro e Williams encontraram que, de uma amostra de 239 adolescentes entrevistados, 49% relatou ter tido algum envolvimento em Bullying três meses anteriores à pesquisa. Sendo que destes, 26% foram exclusivamente vítimas, 21% foram alvos/autores de intimidação e 3% exclusivamente autores. No geral, 91,8% dos alunos que foram agredidos pela mãe ao menos uma vez estavam no grupo de alunos que sofreram e praticaram o Bullying, ou seja, os alunos que sofreram pelo menos um tipo de violência por parte da mãe tinham 3,2 mais chance de se envolver em Bullying como alvo/autores do que aqueles que não sofreram essa violência. Entre outras análises estatísticas mais complexas, de forma geral, os resultados confirmaram que os alunos que vivenciaram a violência doméstica, de forma direta e/ou sendo expostos à violência interparental, tinham maior probabilidade de se envolver em situações de intimidação (bullying) na escola, especialmente como alvo/autores.
            De forma conclusiva, lança-se um questionamento em relação à violência tão freqüentemente observada atualmente no contexto escolar, e o convívio familiar e suas especificidades. Existem diversas políticas de prevenção e luta contra a violência doméstica, principalmente a que envolve a violência contra a mulher, tão freqüentemente vivenciada por crianças e passadas de forma transgeracional ao longo dos anos. Mas as políticas não estão dando conta da enorme consequência a longo prazo a que essas crianças estão submetidas. A partir dos dados estatísticos apresentados, é possível se afirmar que a violência em casa é a principal formadora das condutas dos filhos, observadas na escola. Se a criança aprende o vocabulário da agressão como forma de solução para os relacionamentos interpessoais, ela possivelmente o reproduzirá quando for preciso e, tendo em vista a fase escolar, que compreende os longos anos da infância e da adolescência, a instituição escola talvez seja o principal endereço dessas manifestações sociais de violência, domínio, abuso da liberdade, desrespeito, falta de empatia, entre outros. Pode-se afirmar que o comportamento agressivo dos filhos nas escolas poderia ser compreendido como um “pedido de socorro”, já que a apresentação de comportamentos violentos pode ser considerado um fator indicador de que a criança se econtra em situação de risco, frente à exposição à violência severa (Maldonado & Williams, 2005).
            Que tipos de intervenção deveriam ser feitas? Como a família deveria participar nesse processo? Que função a escola tem quando participa ativamente de uma situação de violência e precisa intervir pelos alunos, vítimas e agressores? De que forma poderia haver uma comunicação entre a família e a escola?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bullying e saúde mental • Bullying and mental health

Bullying é o nome, de origem inglesa, dado a uma seqüencia de atos violentos de característica física e/ou moral, cometidos de forma incisiva e repetitiva, contra uma ou várias pessoas, que normalmente se encontram em uma situação de vulnerabilidade ou em um contexto ou situação em que se torna improvável a sua auto-defesa. Esse tipo de violência se configura entre pares, ou seja, entre pessoas semelhantes, que não estão em uma relação hierárquica ou de poder e por isso, é mais comum definirmos Bullying como a violência escolar entre alunos, apesar de ele ter outras definições em outras culturas.
         Muito tem sido observado no país ultimamente acerca do Bullying. Não porque o termo foi criado recentemente. Na verdade, essa definição já existe há alguns anos no Brasil mas, infelizmente, começou a "cair na boca do povo" há alguns meses, com o ocorrido em Realengo este ano.
           A tragédia de Realengo é um exemplo importante para dar início à discussão que pretendo gerar. Há muitos profissionais da saúde dizendo na mídia que o Bullying não foi o motivo principal pelo qual Wellington resolveu assassinar os estudantes no Rio de Janeiro. De fato, podemos dizer que foi um conjunto de acontecimentos e vivências, em toda a existência de Wellington, que puderam, juntos, corroborar para esse quadro. Mas não podemos deixar de fora o fato de que toda a violência moral e física vivenciada por ele durante quase todo o seu momento escolar teve uma importância gravíssima em sua saúde mental e sua visão de si próprio e do mundo. Em suas cartas, Wellington diz que o motivo de suas ações não tem a ver exclusivamente com o Bullying sofrido por ele. Mas diz respeito a várias outras lutas que ele tem para si, que no fundo poderiam estar intimamente relacionadas com a significação que ele dá para o conceito de violência,   respeito, convivência social, que com certeza foi construída em seu período de maior importância e formação de self, seu período escolar, que corresponde à sua infância e adolescência.
            Não podemos tentar procurar uma psicopatologia em que Wellington se encaixe, ele não está vivo para podermos compreender melhor sua subjetividade e não temos detalhes suficientes sobre seus pensamentos e seus reais motivos para ter feito o que fez. O que sabemos é que ele vivenciava uma nítida percepção distorcida da realidade, com pensamentos e crenças muito fortes, voltados para um estilo de vida e uma missão construída por ele como algo realmente importante para sua existência. Essa distorção, de acordo com seus conteúdos observados, provavelmente se relaciona intimamente com a realidade por ele vivida, não somente com o histórico de violência na escola, mas por todas as consequências geradas por um estilo de conduta que, aparentemente, já vinha sendo manifestado por ele desde pequeno. A compreensão social acerca de seu quadro parece bastante comprometida. Com certeza Wellington passou por muitas dificuldades e preconceitos. O próprio Bullying cometido contra ele denuncia que suas particularidades e suas características eram vistas como "estranhas" e "vulneráveis" por seus colegas de classe. Talvez não seja possível dizer a partir de que momento essa psicopatologia possa ter começado a se manifestar, mas pode-se afirmar que seu prognóstico foi fortemente influenciado pelo contexto em que ele precisou viver, marcado por  muitos episódios de violência, incompreensão e provavelmente segregação.
               Por isso, retoma-se o alerta em relação à probabilidade de um Bullying estar ocorrendo. Percebe-se que a criança modifica sua motivação para ir à escola, sua auto- estima fica prejudicada, ela experimenta bastante isolamento social, suas notas e aproveitamento das disciplinas sofrem grandes modificações. Se não é detectado pela escola e pelos pais que há algo que está afetando diretamente o emocional da criança, e nada é feito em relação a isso, ela tende a ficar pior e pode sim desenvolver outros prejuízos maiores para sua vida, tal como um adoecimento mental e físico e a conseqüente atitude impulsiva como o suicídio ou o homicídio, como o observado em Realengo.
                Antes de apontarmos o dedo para o agressor, no entanto, precisamos nos lembrar que ele também tem um sofrimento envolvido. Violência e abandono em casa podem ser fatores que colaboram para que a criança tome atitudes agressivas na escola, não só porque aprendeu e revivencia o que vê em sua própria família, mas como um depósito de ações agressivas e descarregadoras de tensão, que não são possíveis de serem manifestadas em casa. Também por aceitação social, encaixe no grupo, reconhecimento. O que é preciso ser lembrado é que violência e agressividade também é sintoma de um emocional desequilibrado. Não somente o agredido vivencia dor, o agressor também precisa de compreensão e precisa que suas condições de vida e seu contexto social seja modificado.
            O Bullying é uma violência que se manifesta a partir de uma demanda emocional que precisa ser bem investigada. Se não é possível preveni-la, é possível repará-la e evitar que fique mais grave e traga mais sofrimento tanto para quem o comete, quanto para quem o recebe. Nossas escolas precisam estar mais bem preparadas para falar sobre o assunto com seus alunos, mas também para saberem detectar e tomar providências caso percebam que algo está acontecendo. Precisamos lembrar que o período escolar pode significar momento de importante construção de um ser completo, com crenças, pensamentos, idealizações, condutas, motivações e interpretações que se refletirão em seus comportamentos como adulto anos depois. Se esse momento da vida não foi bem vivido ou foi recheado de péssimos vínculos e episódios traumáticos e fragmentadores, é possível que traga sérias consequências para o depois, trazendo bastante prejuízo para o ex aluno e podendo, inclusive, desencadear sofrimento psíquico grave.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Inimputabilidade penal • Mental Incapacity in criminal sentencing



O conceito de inimputabilidade penal diz respeito à incapacidade que uma pessoa apresenta de responder legalmente sobre um ato cometido, provocado pelo não entendimento das consequências de seus atos e a impossibilidade de ser punida pelos seus comportamentos. Ela é normalmente comprovada por perícias e divulgadas por laudos detalhados. Mas ainda assim é vista com maus olhos por muitos profissionais e ainda é muito discutida por todas as ciências humanas que, por algum motivo, ainda não dão conta da tamanha complexidade que o assunto pode gerar.
Mas para falar de inimputabilidade penal, primeiramente julgo necessário se falar no que realmente gera a incapacidade de uma pessoa em responder legalmente por seus atos e mais, por que o sistema prisional comum, como as penitenciárias que bem conhecemos, não são os melhores destinos para quem possui esse perfil inimputável?
São vários os motivos que levam uma pessoa a cometer um crime. A sociedade está acostumada a julgar comportamentos humanos sob uma base maniqueísta, em que o bem sai na frente no poder pela justiça e o mal deve ser punido independentemente de qualquer explicação ou causa. A verdade é que, analisando de perto, qualquer crime terá explicações plausíveis quando vistos pelo referencial de quem o comete. Falando em homicídio, é difícil deixar de lado toda a discussão moral e ética acerca do alguém que retira o direito de vida de outro alguém. Essa pressão filosófica é tão grande, que não cabe espaço para maiores análises ou para maiores explicações e a gente toma a posição de querer defender o "bem" e esquecer o "mal" ou deixá-lo longe do convívio social, longe de seus direitos, longe de uma compreensão e um perdão.
Ao meu ver, qualquer pessoa que esteja em sofrimento psíquico grave é uma vítima de uma consciência afetada. Digo vítima porque acredito que a consciência é um estado mental que tem muito mais controle sobre nós mesmos do que nós sobre ela. Fatores inconscientes mediadores e moderadores de comportamento podem ter suas portas abertas, uma vez que nosso sistema psíquico passa por qualquer embaralhamento e quanto a isso, não temos um controle consciente, não é como curar uma tosse tomando um remédio. São vários transtornos mentais que podemos listar como possuindo características de confusão com a realidade, não somente os psicodinamicamente psicóticos. Uma pessoa em depressão fortíssima terá uma visão da realidade afetada, mas isso não a classifica como psicótica. Um paciente com Transtorno de Personalidade Borderline também pode apresentar uma forma muito peculiar de enxergar sua convivência em sociedade, sobretudo sobre seus relacionamentos interpessoais, e isso também não o classifica como psicótico. Então o que, exatamente, faz com que uma pessoa se encaixe em um perfil de inimputabilidade penal?
De acordo com o DSM-IV-TR, transtornos mentais são "concebidos como síndromes ou padrões comportamentais ou psicológicos clinicamente importantes, que ocorrem num indivíduo e estão associados com sofrimento ou incapacitação ou com um risco significativamente aumentado de sofrimento, morte, dor, deficiência ou perda importante da liberdade". Então qualquer que seja a condição mental de um paciente, suficientemente prejudicial para seu funcional, ocupacional e social, pode-se dizer gerar um padrão clinicamente importante, no sentido de que deve ser tratado corretamente com psicoterapia e, muitas vezes, com psicofarmacologia. Um paciente com esquizofrenia, por exemplo, pode manifestar delírios e alucinações que condizem com um desejo muito grande de matar alguém, com uma explicação que, em seu universo subjetivo, é completamente plausível. Como um paciente suicida atendido no Hospital de Base, que acreditava com todas as forças que deveria se matar para livrar sua mãe dos espíritos do mal. Depois de ter sobrevivido à tentativa de auto-extermínio, o delírio do paciente passou a ser o de matar sua própria mãe, pois só assim ela seria liberta. Em um caso como esses, é complicadíssimo segurarmos o paciente pela mão e tentarmos fazer com que ele enxergue a realidade. Porque afinal de contas, de qual realidade estamos falando? Um paciente tido como portador de um Transtorno Mental vive sua subjetividade muitas vezes sem sofrimento consciente algum. Seus comportamentos e atos são tidos como lógicos e muitas vezes não há discurso racional que faça uma idéia ser barrada e desconstruída.
Um paciente com Transtorno de Personalidade Anti-social, o famoso sociopata ou psicopata, tem uma vivência tão apática quanto aos direitos vitais de outras pessoas, que ele pode assassinar um próximo simplesmente para conseguir suprir uma necessidade própria. Falta a esse paciente uma visão empática, solidária, e "consciente" com os valores morais estabelecidos por lei, por exemplo. Como julgar uma atitude de um sociopata sob os olhos do direito penal e garantir a ele uma sentença puramente punitiva se, ao final de sua condenação, ele retornará à sociedade ainda portando seu transtorno de personalidade e ainda carregando sua subjetividade e visão de mundo?
Questionar a inimputabilidade penal deve levar em consideração exatamente isso: a subjetividade e a visão de realidade que uma pessoa possa ter. É através do convívio que internalizamos valores morais que nos constroem como pessoas conscientes de nossos deveres e direitos como cidadãos. Quando com um aparato psicológico intacto e saudável, essa internalização ocorre facilmente, sem muitas dificuldades, e a simples visão do direito a vida do próximo é enxergada quase que automaticamente. Uma vez que esse aparato psíquico falha na introjeção desses valores morais "normalmente" consolidados, a consciência para o direito à vida de outrém já não é a mesma.
O sistema penitenciário brasileiro está focado em promover a punição daqueles que cometem crimes. São cárceres em condições desumanas, abrigando muito mais gente do que podem suportar, com um regime torturante. A visão não é a de uma recuperação do ser humano, muito pelo contrário, muitos saem de lá mais experientes do que já entraram. A punição severa a qual estão submetidos parece dar espaço apenas para um arrependimento profundo, o que não comprova que nunca mais precisarão cometer os mesmos crimes que já foram cometidos em outro momento. Mais uma vez, os diversos motivos que levam uma pessoa a se comportar e a cometer crimes são tão complexos, que nada pode ser comprovado acerca de uma outra situação em que um crime poderia ser cabível. Ou seja, é perfeitamente compreensível que uma pessoa possa sair da cadeia anos após ser admitido, arrependido pelo que fez, mas ainda em condições sociais e humanas tão precárias que a probabilidade de precisar cometer outro crime é ainda altíssima.
Vendo isso, é possível se enxergar os motivos pelos quais não há como sentenciar uma pessoa que não tem consciência de seus atos. Um anti-social, após matar seis garotos e não ver seriedade em seus atos, irá cumprir pena por anos e sairá ainda em sua condição mental e cometerá outros crimes tão graves ou piores quanto os já cometidos. Enquanto o sistema prisional estiver focando apenas na punição e não na recuperação do ser humano, não há como tratar as pessoas com perfil inimputável de outra forma.
Para sentenciar alguém ao corredor da morte, por mais que não tenhamos pena de morte aqui, parte-se do pressuposto de que essa pessoa possui plena consciência de seus atos e agiu de forma cruel, promovendo um mal para a sociedade e deve ser punida por isso. No entanto, isso não lhe retira o direito já pré-determinado de vida, de bem-estar e de existência digna. Se uma pessoa não é capaz de enxergar a realidade como enxergamos e não possui os olhos que possuímos para ver que seus atos causaram um mal a outras pessoas e feriram seus direitos como cidadãs, puni-la sob um regime comum não trará resultado algum, a não ser privá-la de liberdade, enquanto podia estar tendo a recuperação ou o tratamento correto para sua condição mental.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Gênero e violência conjugal • Gender and domestic violence



É milenar a história da vitimação feminina à visão hierárquica do patriarcado, que sempre colocou a mulher em uma posição de subordinada e passiva, diante de um poder masculino sempre ativo e disciplinador. Podemos chamar de gênero o papel que homens e mulheres têm na sociedade, e papéis de gênero, as atividades, comportamentos e funções atribuídas a eles.
Os papéis de gênero estão nitidamente retratados no nosso cotidiano nas mais variadas formas. A sociedade brasileira ainda carrega consigo um imaginário machista que se reflete desde a vivência dentro de casa, com a nossa educação de berço, até na consolidação da justiça, que teoricamente deveria privar por direitos iguais e justos. Apesar de muito ter mudado ao longo do tempo, inclusive com o movimento feminista, que conquistou um espaço fundamental nas políticas públicas e na reflexão social, infelizmente ainda se vive uma discriminação muito grande no que diz respeito à vivência feminina, em todas as dimensões.
É nítido o modelo educacional brasileiro passado de geração para geração. Desde crianças somos instruídos a ver o papel de homem e mulher muito bem consolidado, com regras, valores e idealizações bem limitados. As meninas aprendem a ver o mundo como um espaço que demanda uma postura materna, um preparo físico e emocional para ser reprodutora, dona de casa e boa mulher. Os meninos aprendem a se ver como provedores de uma vida familiar, estimulados a investirem em carreiras profissionais, a virarem seus olhares para o universo público. Esses papéis de gênero não são internalizados somente por meio da educação de casa, todos os meios de comunicação contribuem para a perpetuação desses ideais, mesmo que de forma indireta, moldando cabeças e instruindo condutas e atitudes perante uma sociedade que deveria ser totalmente heterogênea. Quantas vezes não vimos propagandas na televisão, retratando o contexto familiar e utilizando a imagem da mulher ora como uma dona de casa dedicada, ora como um pedaço de mau caminho, totalmente sedutor e perigoso? Quantas vezes não vimos em revistas femininas páginas e mais páginas estimulando cada vez mais o pensamento amedrontador da mulher, produzindo cada vez mais pensamentos machistas e debilitantes, do como agir em sociedade, o que fazer e o que não fazer diante de certas situações?
Toda essa visão da mulher como um ser frágil e submisso colabora para as relações de poder que se formam, quase que naturalmente, dentro de interações homem - mulher. Seja dentro da família com o pai sendo o centro disciplinador, seja dentro de relações afetivas, em que o cônjuge permanece em um papel ativo e dominador, seja no contexto do trabalho, em que homens exercem cargos de alto poder.
Muito provavelmente , essa internalização do poder masculino seja o principal fator que colabore para a ocorrência de tantos casos de violência conjugal, em que a mulher pode estar submetida, realmente, a uma relação de dominação e por simplesmente não poder se defender sozinha. O que se tem percebido é uma dificuldade de traçar um perfil de agressor, demonstrando que pode não existir uma padronização de comportamentos e de condutas masculinas que caracterizem esse quadro. Boa parte dos agressores é constituída por homens de classe média, com boa instrução e sem históricos prévios de violência. Então o que exatamente faz com que situações como essas ocorram?
Pesquisas têm demonstrado que homens tendem a praticar violência em momentos de raiva, reagindo a algum pensamento destrutivo em relação à mulher. Apesar de não haver um perfil muito bem determinado, há sinais prévios que demonstram ciúme e proteção exagerada por parte do homem, além de outros episódios de violência psicológica, normalmente muito difíceis de serem detectados. Talvez uma melhor pergunta gire em torno do motivo pelo qual tantas mulheres permanecem submetidas a relações conjugais violentas e por que parece tão difícil ter atitudes que decidam de uma vez por todas por acabar com esse ciclo de agressividade. Alguns dos vários motivos que as mulheres apontam para não denunciarem algum ato de violência dizem respeito ao medo de reagirem à agressão e passarem por algo muito pior posteriormente. Há mulheres que tendem a ver o ato de agressão como algo naturalizado, o pensamento de que é normal se esperar de um homem atitudes violentas, sinal de uma compreensão de papéis de gênero muito provavelmente passada por outras gerações. Há mulheres que preferem se submeter a relações conjugais violentas para protegerem seus filhos, para manterem a dinâmica familiar e também por relatarem amarem seus cônjuges e não verem o ato violento como algo de muita importância.
É importante se dizer que qualquer relação de violência, seja ela envolvendo homens agressores e mulheres vítimas, seja ela envolvendo homens como vítima e mulheres como agressoras, envolve uma interação dinâmica que precisa ser compreendida. O acolhimento é um procedimento de altíssima importância em qualquer um dos casos, pois terá um papel protetivo e preventivo, possibilitando até a resolução de problemas conjugais, centrais nesse contexto de violência.
Outra questão que pode ser levantada acerca do tema diz respeito aos diversos casos de violência conjugal praticamente inacabados e sem proteção nenhuma por parte do Estado. Apesar de a Lei Maria da Penha ter sido consolidada há alguns anos, ainda se pode ver posturas extremamente machistas no contexto jurídico, que acaba por transformar a agredida em transgressora, levantando motivos totalmente descabidos para justificar a atitude agressiva do cônjuge e tomando decisões que não visam a proteção da vítima, possibilitando novos episódios de agressão.
As discussões acerca dos papéis de gênero e das relações de poder são tópicos cada vez mais crescentes. Há ainda uma grande necessidade de reflexão acerca do tema para se levantar melhores idéias e posturas que podem gerar melhores acolhimentos e decisões protetivas. Compreender os motivos que levam uma relação a se estabelecer como uma interação de poder e violência é fundamental, mas saber como agir nessa situação, dando apoio à vítima, buscando a compreensão dessa dinâmica relacional e tomando decisões corretas que visem a prevenção de novos episódios violentos é ainda mais importante.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A memória • The memory



O que exatamente está envolvido no estabelecimento de memórias? Que áreas cerebrais subsidiam a aquisição de novas lembranças e a recuperação de fatos armazenados há algum tempo? Porque lembramos e esquecemos de tanta coisa? O que acontece quando sofremos lesões e temos amnésias?
A memória é um assunto de pesquisa tão complexo, que são necessárias páginas para se dissertar exatamente sobre tudo a respeito do tema! Mas existem alguns conhecimentos importantes e básicos sobre o assunto que podem ser explorados, trazendo um gostinho a mais de se pesquisar mais a fundo sobre esse assunto misterioso da vivência humana.
Bem, a memória é um fator da cognição ligada a vários outros fatores, essenciais para a nossa existência e interação. A memória está relacionada à aquisição da aprendizagem, consequentemente relacionada à resolução de problemas. Desde a aprendizagem sensorial, envolvendo o reconhecimento de estímulos ambientais, a nível tátil, auditivo, visual, até a aprendizagem semântica, envolvendo a construção linguística e fonológica, chegando à aprendizagem procedural, envolvendo o "saber como", as etapas necessárias e específicas para se realizar uma atividade e se resolver um problema.
A memória se configura em três formas. É a partir da memória sensorial que entramos em contato com os estímulos ambientais e armazenamos informações por um curto período de tempo. Nesse período, estamos nos utilizando da memória de curto prazo, que foi substituída pelo conceito de memória de trabalho. Essa memória é limitada e serve para que possamos realizar alguma tarefa, utilizando essa informação e conhecimento brevemente armazenados. Se criamos um acesso frequente a memórias de trabalho ou de curto prazo, elas podem vir a ser memórias de longo prazo, praticamente definitivas e passíveis de recuperação a qualquer momento. A memória de longo prazo contém lembranças inesquecíveis sobre fatos da vida, além de algumas outras informações que podemos até perder com o passar do tempo. Ela também pode ser dividida entre memória declarativa e não- declarativa. A primeira, diz respeito a toda a memória de que temos consciência, que podemos acessar tentando apenas resgatar uma informação. A segunda diz respeito às memórias inconscientes, que resgatamos inconscientemente, de acordo com estímulos e situações ambientais.
A memória declarativa pode ainda ser definida como do tipo episódica ou semântica. A primeira diz respeito à lembrança de episódios organizados no tempo. Como a lembrança de o que comemos no café da manhã, quais procedimentos e em que sequência tudo ocorreu. A segunda diz respeito à memória de significação, envolvendo palavras, números, códigos, etc.
Sabe-se que existe uma área cerebral responsável pela memória: o hipocampo. Mas foi a partir de estudos significativos que chegaram à conclusão de que o hipocampo não é responsável por todo tipo de memória. H.M. foi um paciente que passava por um quadro de epilepsia e passou por uma intervenção cirúrgica a fim de aliviar os sintomas da doença. Ele teve seus lobos temporais mediais bilateralmente retirados, o que facilitou o controle dos sintomas da epilepsia com o uso de fármacos, mas trouxe uma amnésia anterógrada grave associada a uma amnésia retrógrada leve. Amnésia anterógrada é uma incapacidade de lembrar e armazenar memórias após a cirurgia. Ou seja, H.M. ficou incapacitado de obter novas memórias depois que passou pelo procedimento, conseguindo apenas efetuar rápidas atividades, com o uso da memória de curto prazo. Amnésia retrógrada é uma incapacidade de lembrar memórias obtidas antes da cirurgia. H.M. teve uma amnésia retrógrada leve pois ficou incapacitado de lembrar de fatos que ocorreram alguns anos antes da cirurgia, mas era capaz de lembrar de vários fatos da infância, além de se lembrar de aprendizagens como falar, efetuar cálculos, vestir-se, entre outras coisas.
H.M. teve seu hipocampo comprometido por conta dessa cirurgia, o que levou os pesquisadores a pensarem que essa área está responsável pelo sistema de aquisição de novas memórias e, consequentmente, de novas aprendizagens. Criou-se então uma teoria de que o hipocampo recebe informações de outras áreas cerebrais, como núcleos da base a amígdala, e as modifica, transformando memórias de curto prazo em memórias de longo prazo. Mas não se sabe ainda quais áreas cerebrais estão ligadas ao armazenamento definitivo dessas memórias de longo prazo. Apesar de H.M. ter tido comprometimento de algumas informações de longo prazo, ou seja, ter apresentado uma amnésia retrógrada leve, ele ainda mantinha memórias remotas muito fortes. O que possibilitou que isso acontecesse?

terça-feira, 20 de julho de 2010

Mente e corpo • Mind and body


Seria muito ingênuo por parte do homem se ele pensasse que mente e corpo estão separados, no sentido de que podemos traçar linhas imaginárias limitando o que é palpável pela ciência e o que é misterioso, admitindo que um não interfira no outro.
A Psicologia é uma ciência extraordinária porque trouxe o questionamento acerca do que realmente se deve prestar atenção e a resposta foi enormemente diversificada. Podemos ver estudos que focalizam o contexto inconsciente da psique, vemos estudos com animais em laboratório, vendo comportamentos responsivos a fármacos e mapeamentos cerebrais, vemos estudos sociais, envolvendo conduta, motivação, pensamentos em conjunto. Enfim, como ver o universo humano como algo único e simples, se fazemos parte dele e, por experiência própria, sabemos que estamos longe de realmente entendermos sobre tudo?
As psicopatologias são interessantíssimas porque trazem o paradoxo mente-corpo para as discussões. Dependendo da linha que se segue, a visão de um Transtorno de Ansiedade Generalizada poderia ser, simplesmente, uma reação agonizante diante de conflitos do ego, por exemplo. Ou, por outro lado, reações químicas cerebrais que ocorrem a partir de interações corporais com eventos e estímulos ambientais que se tornaram aversivos.
Bem, para mim, não podemos separar a mente do corpo quando falamos em psicopatologias, pois elas compreendem um universo sintomatológico de origens diversas. É como pensar em uma pessoa com obesidade mórbida. Ela se colocou nesse quadro por uma questão genética, ou por costumes alimentares compulsivos? Se pelo segundo, será que são questões culturais ou de criação ou por questões puramente emocionais? Se ela alcançou a obesidade mórbida e sofre com isso, o que a impede de perder peso e voltar a ser saudável? São limitações físicas ou psicológicas? Ambas! Há vários motivos para se acreditar que uma pessoa tenha tendência genética a ganhar peso. Mas para chegar a um quadro de obesidade mórbida, pensa-se que, no mínimo, existam fatores emocionais fortes, que facilitam a compulsão e finalizam em uma situação de alta periculosidade.
O mesmo podemos falar sobre estresse exagerado. As situações cotidianas nas quais nos envolvemos, preocupações, pressões sociais, responsabilidades, dores de cabeça dos mais variados tipos, até acontecimentos que fogem de nosso controle como uma morte de alguém, um divórcio, uma demissão... Tudo isso colabora para situações tão estressantes em nossas vidas, que às vezes passam despercebidas. Há situações que fogem tanto de nosso controle, que se tornam patológicas. É muito fácil uma pessoa se tornar depressiva diante de uma situação estressora, da qual há um enorme quadro de frustração. E diante disso, vemos reações neurobiológicas muito delicadas, que dão respaldo para as suspeitas psicológicas. Se não houvesse uma correlação mente e corpo, por que um paciente com Transtorno Depressivo Maior apresentaria quadros de insônia, perda de peso e amnésia anterógrada? Por que um estresse patológico faria cair cabelos, perda de apetite? Nossa mente está tão interligada com nosso corpo, que mal temos a noção do quão importante são nossos pensamentos e motivações diante de uma doença aparentemente fisiológica.
Esses questionamentos têm importância seríssima no enfrentamento de situações em que não há muito que se fazer. Um doente terminal, diante de uma quase morte, possui alta probabilidade de se fechar em um quarto, deprimido, porque não consegue lidar com o fato de estar prestes a se despedir do mundo. Talvez o próprio prognóstico da doença tenha uma melhora significativa se o paciente passar por um processo motivacional, que o anime a lutar até o resto de seus dias, com alegria, satisfação.
Podemos falar, também, do efeito placebo. Esse feito nada mais é do que uma influência psicológica para várias questões de saúde. Não é simplesmente usar uma pílula de farinha, totalmente enganosa, para fazer alguém acreditar em um tratamento. O efeito placebo já está comprovado e demonstra o quão forte está o pensamento e a motivação, por cima de quase tudo aquilo que nos parece físico e incontrolável.
O fazer psicologia é extraordinário porque nos abre portas teóricas e metodológicas imensas. Mas para todos aqueles que têm curiosidade ou que se iniciarão nessa ciência, talvez seja importante manter suas visões abertas. A ciência não deve se limitar àquilo que só conseguimos apalpar. A ciência está longe de responder tudo o que perguntamos e precisamos ser ousados. O que posso concluir, agora, é que mente e corpo mantêm uma ligação tão íntima e tão forte, que mal podemos imaginar o poder que nossos pensamentos têm sobre nós mesmos. Muitos estudos ainda podem ser feitos sobre o assunto. Ser um psicólogo consciente é saber que há muito ainda a se conhecer.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Depressão, o Transtorno Depressivo Maior • The Major Depressive Disorder



A Depressão tem se tornado a doença do século. Talvez seja muito importante se perguntar por que isso está acontecendo. Eu diria que podemos listar diversos fatores que poderiam contribuir para a ocorrência cada vez maior de depressão nas pessoas, nas mais variadas idades e classes sociais. Mas é realmente muito difícil generalizar, cada pessoa possui seu universo emocional e cada pessoa terá sua angústia apoiada em um motivo ou vários motivos específicos.
O Transtorno Depressivo Maior, como é chamado, é um transtorno de humor bastante estudado por especialistas ultimamente. Sabe-se que pode existir algum fator neuroquímico envolvido, como falta do neurotransmissor serotonina agindo no organismo. Mas acredito que a depressão possui um fator muito mais ambiental do que químico, além de genético.
Neste transtorno o que mais se observa é um humor deprimido muito frequente e, aparentemente, sem muitos motivos. A pessoa fica chorosa, desanimada, sonolenta, sem energia para fazer as coisas e costuma se culpar muito por vários motivos. O misterioso é que muitas vezes as pessoas deprimidas sabem que tem algo errado acontecendo, sabem que o motivo para estarem assim é desconhecido, sabem que precisam de ajuda, mas nem para isso se motivam. Poderia dizer que um paciente em depressão encontra-se enjaulado, porque ele tem consciência do sofrimento pelo qual está passando, gostaria muito de ser ajudado, mas está em uma desilusão muito grande, normalmente não acredita que possa melhorar, que suas angústias possam ir embora e começa a se sentir inútil e culpado pela situação ou por diversos outros acontecimentos em sua vida.
É muito comum encontrar em pacientes deprimidos a vontade de tirar a própria vida. De acordo com o DSM-IV, um dos principais livros diagnósticos seguidos por profissionais da saúde, a ideação suicida ou idéias sobre morte é um critério fundamental para se diagnosticar o transtorno. Esse critério pode, inclusive, mudar a perspectiva do profissional diante do paciente, o prognóstico pode ficar mais complicado e a internação pode ser uma solução imediata.

Em uma pesquisa que realizei na universidade discutimos a percepção da dor em pacientes com depressão. Um dos tópicos que chamam a atenção é a comorbidade da fibromialgia com a depressão. A fibromialgia é uma doença que normalmente atinge mais mulheres do que homens, ela se caracteriza por dores generalizadas, sem causas orgânicas aparentes. Os pacientes se queixam de sentirem dores no corpo todo e, quando submetidos a exames médicos, não são encontrados motivos fisiológicos para suas dores. Os médicos, então, rotularam a fibromialgia como uma doença psicossomática, quer dizer, uma doença que possui aspectos psicológicos com interferência em aspectos físicos. Por isso é muito comum encontrarmos pacientes com fibromialgia carregando também um humor deprimido e o contrário também! A pergunta é: o que veio primeiro? O paciente adquiriu fibromialgia por conta de sua Depressão ou o paciente se tornou deprimido por conta da fibromialgia?


Sobre os tratamentos para a depressão existe uma discussão quase infinita. Os psiquiatras receitam frequentemente anti- depressivos fortes (tarja preta), além de remédios para auxiliarem o sono, que acabam causando dependência. Há alguns terapeutas que defendem que muitos casos de depressão não precisam do auxílio de remédios. O que seria o mais indicado para o tratamento da doença?
Eu levo comigo a opinião de que todas as terapias existentes podem dar um grande auxílio ao paciente, mas elas dependem da adesão do paciente e do interesse dele em ficar melhor. Qualquer terapia, investida de fé e esperança por parte do paciente, pode tirá-lo desse quadro de sofrimento, desde que bem feita, é claro. Acredito também que existem várias atividades diárias que podem ser feitas para auxiliar o tratamento. Estão sendo feitas pesquisas que abordam o uso da dança, da pintura, da fotografia, ou seja, das artes de forma geral, para a cura da depressão. E elas realmente podem ajudar. São métodos que mexem não só com o processo emocional do paciente, que pode usá-los para se expressar e de certa forma desabafar, como mexe com a auto-estima. Já nos casos mais severos da doença, em que se percebe por exemplo uma ideação suicida muito forte, acho que a intervenção química é muito importante, porque afinal de contas, sabe-se que o déficit de serotonina no organismo traz consequências de muito sofrimento para o paciente. Os anti-depressivos, então, dariam uma ajuda quase imediata para o sofrimento, impedindo que o paciente cometa um suicídio.


Eu poderia resumir esse quadro dizendo que a Depressão é uma doença muitas vezes negligenciada pela própria família do doente, ou até por outras pessoas do convívio social. Na atualidade, é muito comum ver pessoas sempre muito estressadas e preocupadas com a vida, quase sempre carregando um humor deprimido e, então, quando se trata de um caso sério, como o Transtorno Depressivo Maior, muitas pessoas não conseguem discriminar a doença, no sentido de acharem que faz parte da vida, que é comum se sentir triste de vez em quando e esperam que o tempo faça a sua parte. Infelizmente, não são todos os pacientes que têm uma melhora significativa com a passagem do tempo e acabam tirando suas vidas por se sentirem sozinhos, desiludidos, sem perspectiva nenhuma sobre a própria existência.
De qualquer forma, humor deprimido persistindo por muito tempo é sinal de que algo não vai bem. A família e o apoio social nessas horas é muito importante para a recuperação. Nunca deixe de pedir ajuda ou procurar ajuda nessas condições, a depressão tem cura e pode mudar muitas vidas.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Da família à marginalização • From family to marginalization


O conceito de família não é muito antigo. Faz pouco tempo que essa unidade consanguínea passou a ser vista como uma base indissociável da vida, com a valorização dos papéis sociais de cada integrante, da proteção aos menores, do acompanhamento e fonte de apoio aos membros. Com o advento do capitalismo, das Revoluções Industriais, do avanço da tecnologia, da nova economia mundial, o foco social passou a ser "criar" um homem que desse conta dessa competitividade e que tivesse sucesso no que se empenhasse em fazer, trazendo lucros e resultados. Isso quer dizer que o foco social deixou de ser o de simples subsistência e, se posso chamar, o de tranquilidade e passou a ser uma corrida incessante por produção, por ação direta. Tudo o que gira em torno de um humano bem-sucedido, feliz e produtivo diz respeito ao seguimento desse modelo social estabelecido. Nos últimos anos, tem-se notado uma modificação e heterogeneidade de conceitos acerca de felicidade e auto-realização, e também em torno do conceito de família. Na nova era dita anteriormente, a família passou a assumir um papel importantíssimo na formação do ser. A escola, os médicos e a família eram os agentes fundamentais de "produção" de um homem ativo para a sociedade. Ao mesmo tempo, a família ia adquirindo um molde. Ela passou a ser necessariamente vista como um padrão constituído por uma figura paterna, uma materna e filhos. Foi chamada de família nuclear e até hoje permeia as mentes de muitas pessoas por aí. Não é loucura se dizer que a família nuclear, nos tempos de hoje e até há algum tempo atrás, já não se constitui mais como nuclear. Bases familiares estão sendo construídas das mais diversas formas e estão sendo reconstituídas também. Uma família que pode ter iniciado nuclear, encontra uma separação dos pais, que se casam novamente ou simplesmente dividem os filhos, ou a convivência com eles. Algumas famílias já se formam diferentemente, com mães solteiras, mães adolescentes e avós, pais solteiros e até famílias homossexuais, que têm gerado discussões acerca da adoção para a parentalidade gay. Enfim, não há mais como defender a família nuclear como um modelo ideal. Nas condições culturais e sociais atualmente, é normal ver famílias sendo construídas dessas formas diversas e tendo plena felicidade como qualquer outra.
Ainda falando de família, e tendo-a como unidade fundamental para a formação da criança e do adolescente, podem-se discutir questões sociais de emergência que têm colaborado muito para o advento ou para o crescimento de situações de perigo envolvendo essas crianças e adolescentes. Estou falando das condições de vida a que muitas famílias estão submetidas, trazendo uma questão sistêmica. O convívio dos membros fica alterado, o bem-estar familiar fica alterado, a visão de mundo e a perspectiva de futuro da família ficam anteradas. A miséria, por exemplo, que assombra várias famílias brasileiras, traz a desesperança aos pais de diversas crianças e adolescentes acerca de como educá-las, como dar a elas subsídios para a sobrevivência. Evidenciam-se abandonos, condições cada vez mais precárias de vida, ausência de escolarização para os filhos, o que resulta em uma sobrevivência à margem da sociedade.
Sem uma família, ou sem condições internas que segurem uma criança emocionalmente e fisicamente, o menor "cai na vida". Em que lugar desse país não são vistas crianças nas ruas, em péssimas condições de sobrevivência, pedindo dinheiro, roubando, cheirando cola? Isso é apenas o mínimo do que ocorre com essas pessoas. Uma mente ainda não totalmente estruturada como a de uma criança que mal teve bases familiares para se formar como cidadã, possui ideais de ganho de vida ou de sobrevivência que perpassam a moral ou os direitos alheios. Para uma criança violentada, abusada, abandonada, que está acostumada a ver uma vida de desgraça de perto, matar ou roubar os outros não é nada.
Talvez devêssemos parar para nos perguntar o que essas crianças estão sentindo ou pensando quando batem à nossa janela do carro pedindo alguma ajuda. Talvez a reação ou a resposta mais fácil seja fechar o vidro, continuar olhando pra frente ignorando-as, dizendo que não tem dinheiro, da forma mais ríspida possível. O preconceito e o descompromisso das pessoas com essas questões é um dos fatores que mais colaboram para a continuação dessa exclusão social e desse crescimento da marginalidade. É claro que crianças e adolescentes que se percebem negligenciadas pela sociedade são tomadas por raiva e desespero e tendem a se tornar cada vez mais agressivas ou tendem a se entregar a uma sobrevida, até o dia em que não tiverem mais o que fazer.
Que dia serão feitas políticas públicas que tragam resoluções para essas pessoas? Que dia serão feitas intervenções nas famílias em crise? Que dia poderemos pegar na mão dessas crianças e desses adolescentes e levar para instituições onde terão extremo apoio, escolarização e saúde? Instituições de verdade, que tenham um sistema organizado, bem diferentes das já existentes atualmente.
Acho que há muitas pessoas com idéias e ideais brilhantes por aí, mas estão contempladas por um desamparo aprendido, vendo que todo o resto da sociedade simplesmente não liga ou não quer se responsabilizar por algo do gênero. Antes de tudo, precisávamos ver o próximo como um ser humano semelhante, ver as crianças como seres que precisam de apoio e de instrução e ver que o futuro de um país inteiro, não somente o meu ou o seu futuro, depende de como todas essas pessoas construirão suas vidas.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Aptidão mental em concursos públicos • Mental requirements for public services


Não é novidade se falar em exames de aptidão física e mental em Concursos Públicos atualmente. Mas será certo avaliar os candidados em relação a um critério que pode ser completamente enviesado ou subjetivo, em se falando de aptidão mental? Será que está previsto em lei selecionar pessoas com características previamente escolhidas para o exercício de um cargo público específico?

A Constituição Federal, ao dispor sobre os Concursos Públicos, afirma o seguinte:
"Art. 37 - A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:
I - os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei;"

Ou segundo o O Estatuto do Servidor Público Federal, lei n.º 8.112, de 11 de dezembro de 1990, em seu art. 5º:
"Art. 5º São requisitos básicos para investidura em cargo público:
VI - aptidão física e mental."


Os exames psicotécnicos, como são chamados, constituem em baterias de testes psicológicos, entrevistas, dinâmicas em grupo entre outras atividades que tragam resultados concretos sobre uma aptidão mental do candidato ao exercício do cargo, seja ele qual for. Esse exame é de realização restrita ao psicólogo, ou estagiários de psicologia supervisionados por psicólogos experientes. Mas o que é teste psicológico? Segundo o Conselho Federal de Psicologia, teste psicológico "se define como sendo uma amostra objetiva e padronizada de um comportamento, cuja função implica em mensurar diferenças entre indivíduos e suas reações, em situações diversas". No contexto de seleção em Concurso Público, o psicotécnico vem a "medir" aspectos que terão extrema importância na carreira. Pode-se, por isso, desclassificar um candidato que apresentou desempenho inquestionável na prova objetiva mas, no exame psicológico, manifestou características de personalidade ou desempenhos intelectuais em níveis insatisfatórios para o previsto para o cargo. Esses exames têm encontrado muita resistência, pelo questionamento acerca da possibilidade de encerrarem em métodos muito subjetivos e incompletos de se avaliar uma pessoa como um todo. É importante se ter em mente que testes psicológicos, sozinhos, não são capazes de predizer totalmente uma candidato. É necessária uma investigação completa e profunda. Outro fato a ser lembrado é que, por lei, nenhum candidato pode ser discriminado ou excluído da possibilidade de exercer um cargo, caso a instituição avaliadora esteja procurando um perfil específico e fechado, para um cargo público. Talvez isso seja permitido em um âmbito empresarial privado. Mas não para um cargo público. A aptidão mental talvez tenha implicações devastadoras aos candidatos que manifestem desequilíbrio ou características extremamente prejudiciais, dependendo das circunstâncias. Mas como saber se os exames foram feitos de forma correta? Como saber se o psicólogo examinador esteve desprovido de estereótipos e preconceitos pessoais ao avaliar os candidatos? Foram asseguradas as condições de isonomia e padronização dos procedimentos?

Ao pesquisar sobre o assunto, a pedido do Thiago, encontrei um relato de um candidato à Academia de Polícia Militar. Pelo dito, fica claro que o psicotécnico para esse cargo avalia pontos como inteligência (em suas diversas esferas), raciocínio verbal, abstrato, atenção concentrada, entre outros e, também, avalia a personalidade do candidato, utilizando testes projetivos, que levantarão características de conduta, personalidade e emocional. Por fim, ainda são citadas características incompatíveis para o exercício do cargo, como atitude defensiva, rebeldia, falta de energia, agressão, temperamento explosivo, entre outros. Uma outra etapa da avaliação seria observar o candidato em grupo, avaliando se ele possui facilidade em atuar em grupo e em desenvolver estratégias para lidar com situações- problema. Já na entrevista individual, o psicólogo finalizaria sua investigação, depurando os dados já obtidos anteriormente.

De forma resumida, o psicotécnico para a Polícia Militar, teoricamente, envolve uma cadeia de avaliações, em âmbitos diferentes, para se chegar a uma conclusão eficiente e segura. O que é muito importante. Alguns aspectos poderiam ser questionados ao analisar essa forma de avaliação. Por exemplo, não consigo parar de pensar que os candidatos se sentem intimidados e completamente inseguros com esse tipo de "prova". Apesar da padronização e isonomia do processo, tenho certeza que os candidatos se sentem inseguros e muito suscetíveis a "fazerem besteira", comportarem-se de forma estranha ou não conseguirem cumprir atividades da melhor maneira possível. Talvez esse desafio também seja uma provação para o candidato que, preparado para lidar com situações- problema, encare o psicotécnico como algo possível de ser resolvido e executado com facilidade.

Felizmente, é dito que, teoricamente, os candidatos que tenham sido desclassificados por um psicotécnico têm todo um aparato profissional para tirarem suas dúvidas e esclarecerem o motivo da desclassificação. Isso acontece de fato?

Voltando aos aspectos avaliados, como definir inteligência e os diversos raciocínios? Como os testes psicológicos podem avaliar e trazerem resultados seguros acerca dessas instâncias?


Em seguida falarei mais sobre isso...