quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Psicopatologia II : uma introdução psicanalítica ● Psychopathology II: an introduction to Psychoanalysis


O modelo topográfico criado por Freud propõe que o sistema mental se divide em três instâncias. A porção inconsciente é composta por traços mnêmicos que não podem vir às porções sub-consciente e consciente porque existem censuras. O inconsciente diz respeito a um lugar psíquico não material, caracterizado por desejos e pulsões recalcadas. O sistema pré-consciente, que se situa entre o inconsciente e o consciente pode "acessar" e manifestar conteúdos inconscientes que são "liberados" pela censura. A parte consciente é uma parte sensorial e perceptiva, diz respeito à experiência de cada um, ao que é plenamente acessível, mas só demonstra uma parte dos processos psíquicos.
Como já dito anteriormente no outro post, temos a tendência a tentarmos manter a homeostase interna. Dessa maneira, munimo-nos frequentemente de mecanismos de defesa que visam segurar e impedir que conteúdos, desejos e pulsões inconscientes se manifestem. Esses mecanismos de defesa são inconscientes, ou seja, muitas vezes realizamos sem termos plena consciência; e são responsáveis pela manifestação de sintomas e comportamentos.
Posteriormente, Freud teorizou sobre outras três instâncias que não renunciam as outras, só as complementam. O Id, por exemplo, é análogo ao inconsciente, constituído pelos desejos e pulsões. É uma parte obscura e impenetrável da personalidade. O Ego é responsável por moderar o Id, ele constitui a censura, controlando os interesses do sujeito. O Ego é construído a partir de várias interações entre o indivíduo e o meio e as consequentes internalizações de significados, valores, interpretações. Ele é composto por uma parte consciente, que é responsável pela atividade do ser, pela tomada de decisões e integração de dados perceptivos. Sua parte inconsciente é responsável pelos mecanismos de defesa supracitados, que controlam e neutralizam os desejos do Id. O Superego também é formado por processos de identificação, assim como o Ego. Apesar de ser, em sua maioria, inconsciente, sua parte consciente cuida da consciência moral e das funções de auto-observação, ditando atitudes e comportamentos.
A partir dessa teoria, portanto, é possível se pensar em um enorme movimento psíquico que pode pender para o desequilíbrio. De um lado, encontram-se os desejos e pulsões inconscientes, que lutam para serem manifestados e realizados, de outro lado, Ego e Superego lutam para neutralizar e equilibrar esses desejos, barrando-os e impedindo que sejam manifestados. A ansiedade produzida por esse movimento constitui o caráter neurótico que a maioria de nós apresenta. 
Diante disso, o que caracteriza, então, a manifestação dos sintomas e a consequente configuração de uma psicopatologia?
Dependendo da maneira como cada instância será formada, a partir  das relações objetais vivenciadas pelo indivíduo, das castrações promovidas pelos pais, das soluções dos conflitos edipianos, da ferida narcísica, das identificações e internalizações e das consequentes formas que o indivíduo encontrará de se manifestar no meio, relacionar-se, pensar e comportar-se, seu sistema psíquico poderá apresentar conflitos que colaborarão para manifestações de sintomas. 
A manifestação de sintomas psicóticos, por exemplo, nada mais é do que uma falha do Ego e do Superego em barrar os desejos e pulsões do Id. O indivíduo deixa as fantasias e os devaneios se manifestarem e ocorre uma dificuldade de diferenciação entre o real e o irreal. Sintomas como delírios - alteração de pensamento- e alucinações - alteração da percepção- são dois dos principais observados. 
A partir de outro referencial, no entanto, existem configurações mentais que não se caracterizam como neuróticas, nem psicóticas. Os teóricos denominaram essa configuração de Borderline, um estado limítrofe que se situa entre a fronteira neurótica e psicótica e pode adquirir características e sintomas de cada parte, dependendo da formação psíquica de cada um. 
Pode parecer bastante complexa toda essa teorização e de fato ela é. Compreender a fundamentação psicanalítica não é uma tarefa fácil. Preocupei-me em abordá-la de uma maneira superficial e compreensível, pois há muito o que se conhecer para entender melhor sobre cada uma dessas características. O importante a se saber é que dentro de cada manifestação psicopatológica existe uma compreensão dinâmica. Mais importante do que saber da existência dos sintomas é saber a origem de cada um deles e o que cada um deles significa. Assim, é possível traçar um plano de tratamento muito mais eficaz. Como dito anteriormente, apenas tratar o sintoma não resolve o problema. Se você apresenta tosse durante uma gripe, tomar medicações que inibem a tosse não irá solucionar o problema base: a gripe. Se você apresenta insônia, falta de apetite e humor para baixo em uma Depressão, não soluciona o problema base apenas tomar medicações que modifiquem esses sintomas. É preciso compreender e ouvir cada característica, cada sofrimento e cada subjetividade. 
Mais adiante será possível compreender melhor como cada instância mental e cada "perfil" citado acima se manifesta. Tentarei escrever sobre as principais Psicopatologias, abordando não somente a abordagem psicanalítica, mas trazendo reflexões de outras abordagens sobre cada uma delas.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Psicopatologia ● Psychopathology

           O paradigma ocidental costuma dividir o homem em duas dimensões distintas. De um lado, encontra-se a instância física e material, estudada por várias áreas do conhecimento, principalmente a medicina. Do outro lado, a instância psicológica ou mental, podendo ser considerada material ou imaterial (dependendo da abordagem). Por muito tempo -e pode-se dizer que até hoje- essa separação mente-corpo esteve presente em nossas teorizações. Talvez uma das maiores dificuldades que encontramos profissionalmente seja o obstáculo em se reunir todas as especialidades, fazer uma base interdisciplinar para auxiliar uma compreensão, um estudo ou uma prática eficiente. Ao mesmo tempo, observa-se que não somente a divisão mente-corpo está presente: o próprio corpo está segmentado em várias áreas do conhecimento. Esses conhecimentos e especialidades não se comunicam, às vezes até parece que esquecemos que todas as pequenas partes constroem um indivíduo pleno.
            A verdade é que também como o corpo, o mental adoece. Mesmo que tenhamos diferenças teóricas dentro de nossa profissão, é perceptível a dificuldade que enfrentamos em desbanalizar e em tornar mais conhecidas e mais compreensíveis todos os pequenos detalhes quanto às psicopatologias e ao funcionamento mental. A "doença mental" existe há muito tempo, já foi recebida com muito preconceito e já foi motivo de barbáries inimagináveis. Hoje apesar de melhor compreendida, enfrenta a interface da banalização e frequentemente é negligenciada, mesmo precisando de bastante atenção e cuidado. 
                  O ser humano atual vivencia dores diversas. Desde o seu nascimento, está lançado em um universo de sensações e significações que vão formar seu caráter (personalidade) e vão ditar suas tendências de comportamento e pensamento. Apesar de ser mutável e amplamente dinâmico, o ser humano conta com bases mentais mais profundas e duradouras, que podem estar presentes ao longo de muitos anos, em cada passo dado. Cada ser humano é diferente, possui suas próprias "digitais" mentais. A tendência é que haja uma homeostase interna. Todos lutamos mentalmente, mesmo que inconscientemente, para mantermos o equilíbrio mental, mas mais frequente do que imaginamos, esse equilíbrio não é tão facilmente conquistado e isso traz consequências diversas às nossas condutas e pensamentos, principalmente refletidas pela maneira como "escolhemos" resolvê-las ou diminuí-las. 
                   Dependendo da força mental de cada indivíduo, geneticamente influenciada ou ambientalmente influenciada, esse desequilíbrio mental irá se manifestar de formas distintas. Se há uma perturbação da homeostase, o sistema mental irá procurar a maneira mais próxima e mais plausível para resolver o problema. Quando o indivíduo não possui um aparato interno suficiente para retornar ao equilíbrio de forma eficiente, o sistema mental procura outras maneiras desadaptadas e comumente começa a demonstrar sintomas. O sintoma nada mais é, então, que um sinal de que algo está internamente desequilibrado e que o indivíduo talvez esteja utilizando maneiras alternativas, mal adaptadas, para resolver. O mesmo ocorre com nosso organismo quando estamos infectados por um vírus. A causa interna está instalada, nosso organismo procurará a maneira mais eficaz disponível para combater essa invasão e muitas vezes observamos os sintomas como sinais de que há algo errado. Analogamente, curar os sintomas sem focar na verdadeira causa do desequilíbrio significa não dar importância para a verdadeira raiz do problema e, portanto, abrir portas para que ocorra novamente ou que volte com uma força maior. A Psicologia se preocupa com a importância em dar voz para a angústia interna causadora do desequilíbrio. Além de medicar os sintomas (quando necessário), há a enorme necessidade de se compreender a raiz do problema, escutar o sofrimento.
                Ainda amparadas pelo paradigma mente-corpo, as profissões da saúde trabalharam para teorizar e pesquisar fenômenos mentais e orgânicos, para que pudesse ser mais fácil construir instrumentos de conhecimento e consulta. O DSM é o manual estatístico mais utilizado no mundo para essa finalidade. Ele mesmo contém em sua introdução uma reflexão acerca da importância didática de se separar os transtornos orgânicos dos transtornos mentais, mas alerta para a também importante necessidade de não se tornarem excludentes, no sentido de que mente e corpo interagem a todo momento e não é produtivo e seguro promover essa separação. Transtornos Mentais e de Personalidade são os mais frequentemente estudados pela Psicologia e possuem algumas diferenças entre si. Os Transtornos Mentais são condições psicológicas normalmente caracterizadas por episódios e com uma duração mais instável, aparecendo, normalmente, a partir do final da adolescência ou início da fase adulta. Eles causam prejuízos sociais, ocupacionais e funcionais para o indivíduo e precisam estar presentes por um período de tempo variável, dependendo do transtorno. Os Transtornos de Humor, uma das categorias dos Transtornos Mentais, são assim denominados por agruparem fenômenos mentais tipicamente relacionados ao estado de humor do indivíduo. A Depressão, por exemplo, é diagnosticada a partir de avaliações e entrevistas clínicas a fim de se constatar a presença de sinais e sintomas, além de uma duração de no mínimo duas semanas, caracterizadas pela presença de um humor deprimido ou "para baixo", na maior parte do dia, todos os dias. Os Transtornos de Personalidade também trazem prejuízos semelhantes às pessoas que os portam, mas possuem algumas diferenças. Ao se falar em personalidade, toca-se em uma característica mais estável e duradoura, um padrão de comportamentos e pensamentos, também manifestando-se comumente no final da adolescência ou início da fase adulta. Essa categoria, no entanto, é mais complicada de ser observada, é mais rara e mais difícil de ser diagnosticada. Possui um caráter ego sintônico, o que quer dizer que o indivíduo dificilmente identifica seus traços e os prejuízos decorrentes deles. São patologias mais fáceis de serem estabilizadas, mas não existe uma cura permanente, como uma gripe.
                 Independente da categoria dos transtornos, é preciso ter em mente algumas reflexões antes de iniciar seus estudos. Cada fenômeno mental se caracteriza por uma angústia mal resolvida. A compreensão dessa angústia, da forma como surgiu e a forma como foi "solucionada" é um passo importantíssimo para a estabilização e melhora de prognóstico. Ao falarmos em Transtornos de Personalidade, estamos lidando com um domínio teórico que diz respeito a características possivelmente observáveis em todo ser humano, em épocas e momentos variados de suas vidas. Isso significa que a não banalização das psicopatologias implica em primeiramente compreender o que significa adoecer mentalmente, em compreender qual o limiar patológico de cada traço de personalidade ou sintoma e, principalmente, em evitar rótulos e estigmas. Ao se fazer isso, é mais fácil tomar decisões técnicas mais eficientes e conscientes, baseadas em diagnósticos diferenciais, julgamentos mais precisos e expectativas e estratégias de tratamento mais otimistas. 
                  As psicopatologias devem ser vistas como manifestações humanas de pedidos de socorro. Mais adiante será possível comentar com mais detalhes cada fenômeno especificamente. Mas pode-se finalizar essa reflexão com as  seguintes questões: quais dores seriam suficientemente grandes para causar desequilíbrios internos e quais mecanismos de solução seriam mal adaptados o suficiente para produzirem sintomas? 


   

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Toda brincadeira tem hora pra acabar (Amanda Pinho e Ana Molina)



             Bullying é um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, ocorrendo sem uma motivação evidente, praticado por um aluno ou um grupo, contra um aluno ou vários, causando dor, sofrimento e angústia. Esses atos compreendem insultos, intimidações, apelidos cruéis, além de danos físicos, morais e materiais (Fante, 2005), com o objetivo de humilhar, expor ao ridículo, acusar, excluir e prejudicar (Middelton-Moz & Zawadski, 2007). Alguns autores dividem esse tipo de violência em três categorias: a intencionalidade do ato, a prolongação no tempo e o desequilíbrio de poder físico, psicológico ou social entre os envolvidos.
            Hoje essa prática de intimação já é vista por especialistas em violência como uma das formas de abuso que mais cresce no mundo, pois pode acontecer em qualquer contexto social, como escolas, universidades, famílias, entre vizinhos e em locais de trabalho. O motivo pelo qual o Bullying está restrito ao ambiente escolar, como afirma Cleo Fante, é o fato de que a escola é um contexto fechado em que ações violentas poderiam ser facilmente percebidas, prevenidas e controladas (Revista Psique, 2010).
            As práticas de Bullying não são atuais, como demonstram os estudos do professor da Universidade de Bergen (Noruega), Dan Olweus, iniciados em 1980. A pesquisa realizada em 1989 com 84 mil estudantes, 300 a 400 professores e 1000 pais indicou que 1 em cada 7 alunos estava envolvido, de alguma forma, nessa violência.
            Estatísticas realizadas pelo IBGE em março de 2010, com 6780 escolas públicas e privadas, envolvendo alunos do 9º ano do Ensino Fundamental, apontam Brasília como a capital do Bullying. Segundo o estudo, 35,6% dos estudantes entrevistados disseram ser vítimas de agressão escolar. Belo Horizonte esteve em segundo lugar, com 35,3% e Curitiba, em terceiro, com 35,2%. Essa pesquisa também aponta que a prática esteve mais frequente em escolas particulares (35,9%) do que em escolas públicas (29,5%), além de demonstrar que esse tipo de violência ocorre com mais frequência entre os estudantes do sexo masculino (32,6%).
            Mas quem é o verdadeiro responsável por esse fenômeno?
            A família e a escola, como agentes primários de socialização (Ferreira, 1997), têm função importantíssima na construção dos conceitos que envolvem boa convivência entre pares, responsabilidades e deveres, assim como o fortalecimento de valores morais e éticos, como o respeito mútuo, a empatia, a compreensão e a solidariedade, não somente entre os membros da família e alunos, mas entre cidadãos que compõem uma sociedade ampla.
            Tendo a família como a base de formação do ser, uma vez que dentro dela é possível aprender leis de convívio perpassadas pelas gerações, valores e responsabilidades, questionamentos e reflexões, remete-se à Teoria da Aprendizagem Social (Bandura, 1973), acerca da facilidade encontrada pela criança em aprender condutas e comportamentos tendo como base as atitudes observadas dentro da própria família, principalmente entre as figuras maternas e paternas. A partir dessa teoria também é possível compreender os motivos pelos quais várias crianças se comportam de forma agressiva em contextos externos à convivência familiar, principalmente na escola. Vários pesquisadores têm encontrado uma íntima relação entre violência doméstica, no âmbito psicológico, físico e moral, e condutas agressivas em crianças na escola, participando como agressoras ou alvos/autoras de agressão (Pepler, Catallo & Moore, 2000).
            Por outro lado, as instituições de ensino possuem uma carência de capacitação e instrumentos apropriados para lidar com o fenômeno, adotando frequentemente procedimentos tradicionais de culpabilização do aluno (suspensão) e da família (conversa com os pais), medidas insuficientes de abordagem do fenômeno, pois não só projetam a responsabilização das condutas do lado de fora da escola, como auxiliam a recorrência da violência, já que há um desinteresse pelas necessidades e problemas dos alunos. A coerção cria um clima emocional em sala que pode gerar hostilidade, ressentimento, passividade e sentimentos de inferioridade, que dificultam ainda mais o trabalho pedagógico (Furlani, 2003), o professor se volta aos alunos indisciplinados, promovendo a punição pelos comportamentos indesejáveis, mas não favorece o desempenho adequado do aluno. Diante dessa situação, algumas respostas podem ser obervadas por parte dos alunos, entre elas a revolta, como uma reação contra o autoritarismo da escola, manifestando comportamentos que vão desde a indisciplina até a “delinquência” (Novais, 2004).
            O envolvimento em fenômenos de violência gera efeitos a longo prazo bastante prejudiciais, não só para quem é vítima, como para quem comete ou presencia atos de agressão. É possível observar o aparecimento de Transtornos de Ansiedade (Fobia Social, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno do Pânico), que geram extremo prejuízo funcional, ocupacional e social ao indivíduo, podendo persistir por um longo período da vida acarretando necessidades de acompanhamento psicológico. Além disso, é possível identicar outros sintomas como sentimentos negativos, baixa auto-estima, agressividade, dificuldades de concentração, mudanças súbitas de humor, isolamento, insônia, automutilação, estresse e tentativas de suicídio.
            Não há padrões, nem soluções simples. A violência pode ser percebida como um sintoma representativo de que há algo mais grave ocorrendo, demandando maior atenção e compreensão. Esse fenômeno, presente no âmbito individual ou coletivo, pode gerar consequências socialmente abrangentes, que podem ocasionar em novas atitudes agressivas e portanto caracterizam um efeito cíclico. É necessário integrar todas as instâncias envolvidas, como a escola, a família e os alunos, gerar conscientização e promover um sentimento de pertencimento à sociedade, a partir de incentivos, discussões, oficinas e projetos que visam desenvolver valores e condutas mais solidárias, compreensivas, colaborativas e humanas.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O mal que habita em todos nós: reflexão sobre a psicopatia • The evil that dwells in us: reflecting on the psychopathy




Quantas vezes não nos deparamos com notícias escandalosas sobre crimes brutais cometidos das mais variadas maneiras, contra as mais variadas pessoas? Crimes que geram desconforto nacional e internacional, que abrem discussões em diversas esferas, magoam muita gente, impressionam, chocam, causam repúdio, julgamentos, movimentos de luta, perdas de sono...Surgem perguntas perturbadoras que não possuem respostas imediatas, como por que aquela pessoa foi capaz de fazer tal atrocidade, o que a levou a fazer isso, por que aquela vítima sofreu e qual a melhor vingança a ser feita.
Por outro lado, longe de um acontecimento que choca uma nação inteira, estão movimentos de divulgação da violência de uma maneira massiva, manifestados por veículos de comum acesso, perpassando nossos cotidianos sem ao menos termos noção e reflexão sobre eles. Querendo ou não, é através desses veículos que formamos opiniões, adquirimos uma parte de nossos conhecimentos, fundamos valores e aprendemos com experiências alheias. É também a partir deles que organizamos pensamentos hostis todas as vezes em que vemos notícias como as mencionadas anteriormente.
O ser humano é movido por violência. Ela está dentro de nós e é assim que ela é manifestada. Seja sentindo prazer ao assistir lutas pela televisão, ou ao praticá-las na vida real, seja indo ao cinema assistir sequências de filmes sangrentos, seja acompanhando o julgamento de uma pessoa que aparentemente merece todo o mal do mundo por ter feito mal a outra pessoa. De uma maneira ou de outra, aprendemos a ser assertivos desde pequenos, convivemos com várias fontes de agressão e violência, nos mais variados graus, e de certa forma somos capazes até de termos diversão a partir dela. Há até como falarmos da violência como uma característica inata, temos a capacidade de usá-la para nos defendermos, para defendermos um filho ou um familiar, observamos sua presença em comportamentos de outras espécies, ela está presente no nosso cotidiano, em nossas ações e em nossos pensamentos, de um jeito ou de outro.
A partir disso, é possível também se pensar acerca das capacidades que cada indivíduo possui de controlar sua própria violência, além do que essa violência significa para cada um, como ela se desenvolveu e em que esteve envolvida ao longo das experiências. Cada um de nós possui uma formação de personalidade e tendências desde o nascimento, nossos laços familiares, nossas convivências e aprendizados, nossas impressões e experiências boas e ruins, significações que fazemos acerca de nós mesmos e dos outros, formações de identidade, identificações, todos esses processos estão envolvidos intimamente com a forma como construímos esse conceito em nossa mente. Há crianças que vivenciam os mais variados tratamentos, desde a negligência e a violência explícita, física, emocional e sexual, até a superproteção e o fornecimento de um senso de onipotência. Se tudo isso acontece e favorece a formação de um ser em crescimento, além de basear significações que acompanham cada passo ao longo da vida, é plausível se imaginar que vários indivíduos possuem universos de experiências, sensações e sentimentos que organizarão todas as suas condutas dali para frente e isso pode estar completamente ligado ao controle emocional e à ação violenta.
Ao se falar em Psicopatia ou Transtorno de Personalidade Antissocial, há várias referências teóricas que trazem respostas prontas e fechadas sobre o tema. As mais utilizadas no meio médico e psicológico estão caracterizadas em manuais diagnósticos que possuem pouquíssima informação detalhada sobre cada sintoma procurado, o que faz com que a lista de critérios diagnósticos possam ser facilmente encaixados em vários indivíduos, trazendo vieses e banalizações, além limitações para o campo profissional. Exemplos de profissionais da saúde que seguem fielmente esses manuais há aos montes, que publicam livros sensacionalistas, dedicando páginas e mais páginas a um detalhamento de traços negativos e pesados sobre pessoas que portam tais transtornos. Esses meios de informação também colaboram para as reações tipicamente hostis que percebemos socialmente, cada vez que um caso ou acontecimento do gênero é divulgado.
Por trás de uma pessoa que comete um crime, está uma subjetividade gigantesca, composta por diversos eventos passados que colaboraram para a formação de seu caráter. Por mais que nós, psicólogos, precisemos usar as convenções estatísticas para Transtornos Mentais e de Personalidade para guiarmos nossas ações profissionais no trato desses fenômenos, há uma realidade complexa vital em cada um desses casos que impede que se faça uma separação desses indivíduos em relação aos outros e desabilita a possibilidade de se descrever seus atos e sua moral com parágrafos que acabam por denegrir suas reputações, como se pudéssemos reduzir todo um ser e uma vida a uma figura animalesca, imperfeita, monstra e fria, capaz de causar o mal para o próximo.
Ao longo desse semestre precisei desenvolver leituras e estudos acerca do tema e precisei fazer uma vasta e longa avaliação de personalidade de um paciente de um grupo de atendimento do qual faço parte na minha universidade, para finalizar uma parte do meu curso e poder finalmente ter meu título de Bacharel. É impressionante encontrar que por trás de um rótulo que facilmente existiria em qualquer outro local de atendimento, há uma configuração mental tão específica e tão complexa, que só as ferramentas que tive a oportunidade de utilizar possibilitariam essa descoberta (Método de Rorschach). Uma entrevista diagnóstica crua, que busca os sintomas ridiculamente traçados nos manuais diagnósticos ignora a subjetividade de cada  sinal demonstrado pelo indivíduo e automaticamente negligencia o que realmente importa. A avaliação da dinâmica do indivíduo, por outro lado, compreende toda a sua estrutura, suas tendências, suas potenciais emoções vividas, pontos de recursos e demandas, traços patológicos ou não.
Essa pessoa avaliada traz consigo um histórico de extremo sofrimento e dor, com uma vivência confusa de suas emoções e um evidente significado em torno das relações interpessoais e emoções que foi adquirido ao longo de suas próprias experiências. O que mais se poderia esperar de uma pessoa que provavelmente vivenciou alguma violência extrema quando mais nova, não teve a oportunidade de resignificá-la e possivelmente continuou imersa em um contexto que favoreceu a formação de um conceito um tanto distorcido acerca da verdadeira maneira de se aproximar de outra pessoa, de como manter relações pacíficas e de como controlar as emoções? Nessa configuração, é totalmente plausível se esperar que haja reações violentas e destrutíveis, pois essa foi a linguagem adquirida ainda em tenra idade e há um sofrimento muito intenso envolvido, que marca fortemente e definitivamente a existência daquela pessoa, influenciando sua auto-imagem ao longo de sua vida. 
O objetivo aqui não é manifestar opiniões favoráveis às atitudes violentas e criminosas que vemos frequentemente na mídia. Sabemos das obrigações de cada cidadão e sabemos que temos leis a cumprir e valores morais e manter e passar de geração para geração. Para toda ação maléfica que vai de encontro com a lei deve existir uma contrapartida justa, uma punição adequada e uma reestruturação e recuperação do ser que errou. Mas é preciso questionar e ir mais além. Por trás daquele monstro que friamente violentou uma mulher, existe um ser humano que está em intenso sofrimento e precisa de atenção.
Afinal de contas, ao sermos notificados de crimes cruéis como esses, damos o direito a nós mesmos de pensarmos de forma agressiva e de querermos uma vingança imediata. É comum ver movimentos de todas as partes, com julgamentos, xingamentos, motivações destrutivas diversas. Estamos pensando e agindo como a pessoa que cometeu o crime e nem ao menos estamos vendo. Não porque também somos monstros e porque somos insensíveis para percebermos isso. Mas porque também somos seres humanos, que legitimamente ou ilegitimamente podemos manifestar problemas com nossas tolerâncias e emoções.
É possível encontrarmos as respostas para aquelas várias perguntas se olharmos para dentro de nós mesmos e percebermos que somos todos muito parecidos, cada um em sua especificidade e riqueza interna.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Piaget e Consciência Moral: por que estamos nos violentando? • Piaget and Moral Conscience: why are we violating ourselves?



       
            Para Piaget (1932), as regras morais se transmitem de geração para geração e se mantêm graças ao respeito que os indivíduos mantêm por ela, ou seja, a criança dificilmente desenvolverá uma consciência autônoma, ela terá o apoio e aprendizado de personalidades superiores. Esses deveres se tornam obrigatórios porque emanaram de indivíduos respeitados, não por causa de seus conteúdos específicos.  Piaget separou as interações sociais em dois tipos: a coação social se caracteriza por uma relação entre dois ou mais indivíduos, em que se haja um elemento de autoridade ou prestígio. A cooperação social se caracteriza por uma relação entre dois ou mais indivíduos, que acreditam serem similares, ou seja,  não há elementos de autoridade entre eles, são relações entre pares. O respeito unilateral é a primeira forma de respeito que surge no desenvolvimento do ser humano, e se constitui nas relações de coação social, como relaçoes estabelecidas entre crianças e seus pais, ou com outros adultos significativos para elas. A criança atribui um grande valor às normas, opiniões e valores desses adultos, imitando-os e adotando-os (Piaget, 1941).
             É a partir do respeito unilateral que outras formas de respeito são possíveis, como o respeito mútuo, quando os indivíduos se atribuem reciprocamente valores equivalentes, como podem ser vistos em relações sociais cooperativas, momento em que o indivíduo percebe o potencial para mutação das regras e percebe que ele mesmo pode construír seus valores, dando início à Autonomia Moral. O indivíduo se torna capaz de refletir sobre as hipóteses e de estabelecer ideais de igualdade, justiça, solidariedade e liberdade, que poderão permear a consciência para suas ações. É a partir do respeito mútuo entre personalidades autônomas que seria possível a diversidade.
            No estudo feito por Larissa Machado de Souza Barroso (2000), que caracterizou sua dissertação de mestrado, e tem como título: As ideias das crianças e dos adolescentes sobre seus direitos: um estudo evolutivo à luz da teria Piagetiana, é possível se estabelecerem relações entre seus achados e a teoria de Piaget sobre a Consciência Moral, além de ser possível analisar, também relacionalmente, alguns conceitos fundamentais propostos por ele. Em seu trabalho, Barroso (2000) analisou como crianças e adolescentes de variadas idades interpretavam situações diversas que questionam os Direitos Humanos e quais soluções eram propostas por eles. Observou-se que crianças muito pequenas utilizavam-se de situações muito concretas, presentes em seu cotidiano, para justificar seus motivos para interpretar as situações como erradas, além de proporem como solução estratégias muito situacionais e imediatas, não conseguindo perceber as consequências, também prejudiciais, que suas soluções poderiam gerar. Como por exemplo, em uma situação de maus tratos exposta, crianças muito novas conseguiam conceber como uma situação muito possível de ocorrer, inclusive relatando experiências próprias vivenciadas, e davam como solução estratégias como “fugir de casa” ou “conversar com a mãe” ou com a vizinha que escutava o choro da criança ao ser violentada pelo pai. Crianças de idade mais avançada, por outro lado, tinham uma maior capacidade argumentativa, relatavam experiências próprias e outras vistas em meios de comunicação para justificarem suas análises e conseguiram propor estratégias mais conscientes e abrangentes de solução. Ou seja, foi possível perceber uma maior capacidade de notar que as situações caracterizavam um descumprimento de deveres, ou obrigações,  o que poderia ser teorizado por Piaget como o início de uma Autonomia Moral. Existe a capacidade de perceber como atitudes erradas, que vão contra alguma regra, propondo soluções que fogem do imediatamente perceptível, como as crianças mais novas. Já para os adolescentes, um terceiro nível de compreensão das situações, a idéia de direito está mais bem consolidada, separando direitos de deveres e apontando formas mais eficazes de defesa aos casos de violação, são capazes de observarem as necessidades coletivas, ao invés da meramente individual, além de questionarem ideais estabelecidos, como os de justiça, igualdade, respeito, etc., caracterizando o que Piaget chamaria de uma Consicência Moral bem consolidada.
            Tendo em vista o conceito de adaptação proposto por Piaget, em que no processo de assimilação, o indivíduo se utiliza dos recursos internos já existentes para o retorno ao equilíbrio, é possível se pensar que as crianças mais novas, analisadas por Barroso (2000), além de não terem uma Consciência Moral muito bem consolidada, possuem ainda um repertório pequeno de recursos e estruturas mentais para lidar com novas situações, como as propostas pelo estudo feito. É a partir disso que crianças pequenas, situadas na fase sensório-motor, podem entrar no processo de acomodação, com a consolidação de novas estratégias e mecanismos de enfrentamento e, consequentemente, retornarem ao equilíbrio. Já as crianças citadas como mais capazes de analisar a situação de forma mais geral, tendo consciência dos deveres e conseguindo apontar como soluções, estratégias menos focadas na resolução imediata e concreta, pode-se dizer que se situam na fase das operações concretas, com um crescente incremento do pensamento lógico, com assimilação menos egocêntrica e mais realista, caracterizada por atitudes mais críticas. O terceiro nível, comporto por adolescentes, compreende a fase das operações formais, momento em que é possível formar esquemas conceituais mais abstratos, pautados em ideais de amor, justiça, democracia, etc, e realizar operações mentais formalmente mais lógicas. É possível questionar sistemas sociais e propor novos códigos de conduta (Rappaport, 1981).
            Se o Bullying envolve atos, palavras ou comportamentos prejudiciais, intencionais e repetitivos direcionados a uma pessoa, causados por uma ou mais pessoas, com o objetivo de humilhar, expor ao ridículo, acusar, excluir e prejudicar (Middelton-Moz & Zawadski, 2007), é possível se concluir que todos esses comportamentos caracterizam um descumprimento aos Direitos Humanos, um corte ao respeito mútuo e uma má consolidação da Consciência Moral. Se essa forma de intimidação está presente em condutas nas mais variadas faixas etárias e pode ser vista também em outros contextos que não somente o escolar, pergunta-se: o que acontece no processo de aquisição da Autonomia Moral, envolvendo todas as fases de assimilação e o consequente posicionamento em etapas piagetianas, para que a sensibilidade a esses ideias e valores esteja prejudicado? Se o indivíduo adquire sua inteligência e suas capacidades ao longo de uma vasta interação social (Rappaport, 1981), e, além disso, desenvolve outras formas de respeito a partir do respeito unilateral em relações sociais de coação (com os pais ou adultos significativos), em que tipo de relações esse mesmo indivíduo está inserido ao longo de seu desenvolvimento, que não estão formando ideais mais fortes, abrindo possibilidades para comportamentos agressivos e violentos, que desrespeitam os direitos do próximo? Se o Bullying escolar envolve crianças ainda na fase das operações concretas e que portanto, ainda podem passar por etapas de novas assimilações, é possível se pensar que uma intervenção eficaz pode trazer novas significações e soluções para essas crianças, formando novos valores e compreendendo melhor as noções de direitos e deveres, inclusive de respeito mútuo. E se o Bullying escolar envolve adolescentes que potencialmente se situam na fase das operações formais? Como é possível provocar modificações na visão crítica e em códigos de conduta já estabelecidos, para que atitudes agressivas e violentas não voltem a ocorrer? 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma abordagem centrada no aluno, estratégia para prevenção da violência escolar- análise e reflexão da teoria de Carl R. Rogers. • The student-centered learning, a strategy to prevent Bullying.






            O presente artigo tem por objetivo analisar a obra de Carl R. Rogers intitulada “Tornar-se pessoa”, promovendo reflexões e levantando estratégias a um ensino voltado para a liberdade do aluno, focada em sua experiência e aberta ao questionamento pessoal. Uma maneira a permitir o crescimento efetivo, individual e em grupo, promovendo a consciência e compreensão mútuas e prevenindo a soberania da violência e competição.

            Rogers inicia sua obra expondo experiências pessoais que o levaram a teorizar e colocar em prática sua visão de processo terapêutico ideal e, posteriormente, construiu associações com o contexto escolar, transpondo a terapia focada no cliente ao ensino focado no aluno e, felizmente, observou os mesmos excelentes e duradouros resultados. Antes de tudo, a teoria rogeriana se pauta no objetivo de dar liberdade ao cliente ou ao aluno de se expressar conforme sua própria consciência de sofrimento e/ou demanda, constituindo em uma técnica que não visa somente a exposição ativa de um “detentor do saber” a um aluno/cliente que se posiciona passivamente e absorve tudo o que lhe é imposto. Ao contrário, a técnica diz respeito a abrir um espaço para que seja comunicado pelo aluno ou cliente o assunto a ser conversado e consequentemente a direção do movimento, tanto no processo terapêutico, quanto no processo de ensino.

            A partir dessa perspectiva, também é possível se pensar na enorme contribuição que o olhar compreensivo possui sobre as interações interpessoais. A postura de um professor diante do aluno, caracterizada por uma compreensão e escuta paciente de suas demandas e experiências possibilita que o aluno se sinta reconhecido e acolhido da melhor maneira e, sentindo-se compreendido, é possível que se modifique. Quanto mais um indivíduo é reconhecido, maior a tendência de abandonar as falsas defesas que criou para enfrentar a vida e maior sua tendência a mover para frente. Essa necessidade de se defender por vezes pode ser caracterizada por comportamentos reativos, agressivos, antissociais e prejudiciais.
             Relações pautadas na compreensão e aceitação da subjetividade do outro também podem ser observadas em situações familiares. Atitudes dos pais para com os filhos denominadas “atitudes de aceitação democrática”, caracterizam-se por relações de igual para igual, realizadas a partir do afeto, e demonstram resultar em desenvolvimento intelectual acelerado por parte dos filhos, além de maior originalidade, maior segurança e controle emocional. Por outro lado, quando os pais adotam “atitudes de rejeição ativa”, surgem resultados como leves retardamentos do desenvolvimento intelectual das crianças, utilização pobre de suas capacidades, instabilidade emocional e comportamentos de rebeldia, agressividade e agitação.
            Tendo em vista os inúmeros efeitos colaterais comportamentais que uma relação baseada na autoridade pode promover, é importante analisar as estratégias apontadas por Rogers como saídas para uma relação de ajuda. Entre elas, ele detalha sobre a importância de se apresentar como verdadeiramente é, para construção de vínculos baseados na confiança. Quando se demonstra e expõe verdadeiramente o que se é, o terapeuta, pai ou professor se posiciona por inteiro e proporciona a confiança. Outra saída diz respeito à já citada importância de se estabelecer uma relação demonstrada no reconhecimento de quem o outro é e do que já viveu e traz consigo, pois assim demonstram-se sentimentos positivos e ao mesmo tempo fortalece-se a confiança. Assim também é possível se demonstrar à pessoa que não há um juízo de valor nessa relação, o que permitirá que ela mesma perceba que o julgamento reside dentro de si mesma. Por último, mas não menos importante, Rogers detalha a importância de se ter em mente que não é produtivo perceber o cliente/paciente/filho como um indivíduo rígido e fechado em um conceito pré-determinado, no sentido de que é preciso pensar nas potencialidades e na possibilidade de que suas condições atuais sejam mutáveis e passíveis de transformações.
            A aprendizagem significativa, como fruto da terapia focada no cliente e no ensino focado no aluno, para Rogers, é aquela que provoca uma modificação, seja no comportamento do indivíduo, na orientação da ação futura que escolhe ou nas suas atitudes e na sua personalidade. É possível se observar aprendizagens como percepções diferentes sobre si mesmo, aceitação de sentimentos, aumento da auto-confiança e autonomia, flexibilidade e diminuição da rigidez nas percepções, adoção de objetivos mais realistas, comportamentos mais maduros, modificação de comportamentos mal adaptados e maior aceitação dos outros. Estudantes que estão em maior contato com os problemas da vida procuram aprender, desejam crescer e descobrir, esperam dominar e querem criar. Todas essas aprendizagens e mudanças puderam ser relatadas por um caso exposto na obra “Tornar-se pessoa” em que Samuel Tenenbraum pôde detalhar sua experiência primeiramente como aluno de Rogers, a experimentar de perto a teoria e técnica humanista e, posteriormente, demonstrando sua eficiência em suas próprias práticas como professor em sala de aula.
            Por fim, Rogers fala sobre os resultados da terapia focada no cliente para a vivência intrafamiliar. Entre eles, está o aumento da compreensão sobre si mesmo e o consequente aumento da compreensão do próximo, em suas características e individualidades. Ao mesmo tempo, quando o indivíduo se torna capaz de entender seus próprios sofrimentos, toda a angústica, raiva e agressividade perde seu poder explosivo e é possível questioná-los e ressignificá-los, inclusive em relações que os provocam.
            Tendo em vista a violência e a agressividade recentemente vivenciadas dentro do contexto escolar e buscando uma estratégia que facilite a prevenção e desestruturação disso, a teoria rogeriana demonstra que ter o olhar voltado para o indivíduo e suas experiências, de maneira compreensiva e aberta para as mudanças graduais e duradouras, tende a trazer bons resultados que podem se refletir em outros contextos e possibilitarem novas vivências e novas decisões para o futuro. Se há um espaço aberto para que o aluno converse sobre suas angústias, muitas vezes vivenciada fora da escola, mas trazidas para suas relações escolares, e este aluno percebe estar sendo acolhido com compreensão e empatia, ele mesmo poderá encontrar os caminhos para sua modificação, buscando novas estratégias, tornando menos rígidas suas percepções e podendo, inclusive, refletir essas mudanças no contexto familiar. Escolas que adotem a filosofia humanista podem contar com um método mais aberto às subjetividades de cada aluno e, em suas dinâmicas em sala de aula, podem promover maior aceitação mútua às individualidades de cada aluno, construindo conceitos que vão desde o respeito ao próximo, passando pela compreensão da demanda de cada um e chegando à motivação de ajudar o outro em seu próprio conhecimento. Diferente de uma educação pautada nas relações hierárquicas e autoritárias, o ensino focado no aluno, de base puramente humanista, parece abrir portas para uma estruturação do ser de forma mais consciente e pacífica, gerando indivíduos que, desde cedo, percebem o próximo como um outro com próprias demandas e especificidades, exercitando a tolerância e a empatia e, ao mesmo tempo, prevenindo situações de violência e exclusão.     

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Os efeitos da estratégia educacional autoritária sobre os comportamentos de crianças e adolescentes e a possibilidade de ocorrência do Bullying- Uma reflexão Behaviorista • The effects of an authoritarian educational strategy on the behaviors of children and adolescents: a possibility of Bullying



          




O pressuposto da teoria de Skinner é explicar o comportamento humano como resultado da influência de estímulos presentes no meio. A compreensão acerca da forma como esses estímulos agem sobre os comportamentos é importante, pois assim se torna possível fazer modificações nos estímulos, provocando mudanças comportamentais desejáveis. O comportamento opera sobre o meio e por ele é reforçado ou punido. A frequência do comportamento depende dos estímulos que o seguem e também de seus potenciais reforçadores ou aversivos à pessoa que os elicia. Um estímulo reforçador, por exemplo, age diretamente sobre o comportamento, possibilitando uma nova ocorrência e assim, aumentando sua frequência e probabilidade de eliciamento. Por exemplo, no contexto da escola, um aluno que estuda adequadamente para uma prova pode ser reforçado pela consequente boa nota na avaliação, aumentando a probabilidade de que ele estude com qualidade mais vezes. Uma punição, por outro lado, age diretamente sobre um comportamento indesejável de forma aversiva, limitando-o e/ou cessando-o por completo. Por exemplo, um aluno que tem más condutas na escola pode ser punido pelo professor com algum castigo que seja suficientemente aversivo e assim seus comportamentos poderiam ter suas frequências diminuídas. O que se observa, no entanto, é que a punição possui alguns efeitos específicos: a) inibe temporariamente o comportamento, podendo perder seu potencial avesivo com o tempo; b) pode ter seus efeitos estendidos a outros comportamentos vinculados ou próximos ao comportamento punido, como diminuir a frequência com que um aluno conversa em sala de aula, mas diminuir também a frequência da fala do aluno, mesmo quando ela é desejada em outros contextos; e c)pode exercer sua função apenas quando a contingência de punição ou o agente punidor estiverem próximos, por exemplo, quando a criança é punida por um professor por eliciar comportamentos indesejáveis e, na ausência desse professor (agente punidor), os mesmos comportamentos ressurgem  (Ries, 2001).
            No contexto escolar, a autoridade está intimamente ligada à (in)disciplina, ocorrendo porque o projeto pedagógico prevê relações assimétricas de poder, no qual o docente exerce autoridade sobre o aluno (De La Taille, 1999). A maneira como o professor exerce sua autoridade em sala, de forma autoritária ou liberal, é vital para o estabelecimento de situações de disciplina em sua turma (Araújo, 1999). No entanto, autoridade vem sendo tradicionalmente confundida com autoritarismo e o aluno se cala por temer as punições e ameaças do professor, enfraquecendo, progressivamente, a relação professor aluno(Novais, 2004). Para Lobrot (1977), a autoridade se contrapõe à liberdade,visando se impor ao outro idéias, crenças e hábitos desejáveis. Isso seria possível a partir de estratégias repressivas, que envolvem a coerção, pelo direcionamento através de ameaças e recompensas. A autonomia de pensamento e ação acaba sendo fruto da internalização de regras e deveres que são vivenciadas diariamente no processo pedagógico, por intermédio da autoridade docente (Davis &Luna, 1991). Essa coerção cria um clima emocional em sala que pode gerar hostilidade, ressentimento, passividade e sentimentos de inferioridade, que dificultam ainda mais o trabalho pedagógico (Furlani, 2003), o professor se volta aos alunos indisciplinados, promovendo a punição pelos comportamentos indesejáveis, mas não favorece o desempenho adequado do aluno. Diante dessa situação, algumas respostas podem ser obervadas por parte dos alunos, entre elas a revolta, como uma reação contra o autoritarismo da escola, manifestando comportamentos que vão desde a indisciplina até a “delinquência” (Novais, 2004).
            O controle comportamental do tipo coercitivo, para influenciar comportamentos,  é feito pelo uso de reforço negativo ou punição. Reforço negativo é uma estratégia de reforçamento que tem o objetivo de aumentar um comportamento visado, retirando-se um estímulo aversivo para o indivíduo. Por exemplo, se a professora quer que o aluno faça silêncio e preste atenção na aula, pode tentar controlar seu comportamento oferecendo a possibilidade de ele não precisar fazer o dever de casa, que a priori teria uma significação negativa para o aluno. A punição, positiva ou negativa, tem o objetivo de diminuir a frequência de um comportamento, podendo retirar um estímulo agradável para o indivíduo (negativa) ou inserindo um estímulo aversivo (positiva) para o indivíduo (Sidman, 1995). Para Marinho (1999), crianças e adolescentes expostos ao controle de comportamento por meio da coerção podem manifestar comportamentos antissociais, com características agressivas e rebeldes, além de défict em habilidades sociais, dificuldades escolares, ressentimento e baixa habilidade para solucionar problemas. Para Sidman (1995), crianças e adolescentes educadas por meio da coerção tendem a reproduzir esse padrão punitivo com outras pessoas e em outros contextos, especialmente quando se tornam adultos. Além disso, pessoas expostas ao controle comportamental tendem a encontrar estratégias de evitação, como a fuga e a esquiva, que não proporcionam aprendizado, apenas paralizam o sujeito, que passa a desenvolver dificuldades de se expor a novas contingências, podendo retrair-se e manifestar dificuldade em relacionamento social (Namo & Banaco, 1999).

            Tendo em vista a definição de Bullying proposta por Fante (2005), que o caracteriza como uma série de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, direcionadas a um aluno ou um grupo e produzindo dor, sofrimento, angústia e retraimento social, e ainda, tendo em vista que esse contexto de intimidação ainda não possui apenas uma explicação teórica para sua origem e ocorrência, questiona-se: seria possível que alunos que vivenciam frequentemente contingências punidoras como forma educativa, na escola e na família, estejam reproduzindo esses comportamentos em outros contextos, como uma reação ao aprendizado baseado na coerção (Sidman, 1995)? Se o controle de comportamentos caracterizado pela coerção é responsável por alta ocorrência de comportamentos reativos agressivos, violentos e antissociais (Marinho,1999), é possível traçar uma alta probabilidade de alunos agressores terem vivenciado algum tipo de violência, doméstica ou escolar, caracterizada pelo uso de ameaça, controle e punição, como igualmente demonstra o estudo de Pinheiro e Williams (2009).
            Pais e professores precisam estar mais atentos aos efeitos de uma educação baseada no controle coercitivo, a fim de se evitar consequências e significações, por partes de crianças e adolescentes, que os levem a se comportar de maneira agressiva e violenta em outros contextos, principalmente quando adultos, repassando essas condutas de forma transgeracional. Uma alternativa ao uso da punição seria a utilização do reforço, positivo e/ou negativo, em casa e na escola. Os esquemas reforçadores promovem o aprendizado do indivíduo e a mudança do comportamento de uma maneira pacífica, não utilizando a linguagem da ameaça, o que possibilitaria o crescimento individual e o conhecimento de si (Souza, 2009), sem estar exposto a medo e aversão, que podem ser causados pelo uso contínuo da punição, e sem precisarem utilizar estratégias de fuga e esquiva, que não proporcionam um aprendizado duradouro. 

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Violência, Bullying, Família e Escola • Violence, Bullying, Family and School



         

   A família e a escola, como agentes primários de socialização (Ferreira, 1997), têm função importantíssima na construção dos conceitos que envolvem boa convivência entre pares, responsabilidades e deveres, assim como o fortalecimento de valores morais e éticos, como o respeito mútuo, a empatia, a compreensão e a solidariedade, não somente entre os membros da família e alunos, mas entre cidadãos que compõem uma sociedade ampla.
            Tendo a família como a base de formação do ser, é compreensível delegar a ela uma enorme responsabilidade de servir-se de exemplo para os filhos, uma vez que dentro dela é possível aprender leis de convívio perpassadas pelas gerações, valores e responsabilidades, questionamentos e reflexões. Resposabilidades essas que remetem à Teoria da Aprendizagem Social (Bandura, 1973), que fala justamente da facilidade que a criança encontra em aprender condutas e comportamentos tendo como base as atitudes observadas dentro da própria família, principalmente entre as figuras maternas e paternas. A partir dessa teoria também é possível compreender os motivos pelos quais várias crianças se comportam de forma agressiva em contextos externos à convivência familiar, principalmente na escola. Vários pesquisadores têm encontrado uma íntima relação entre violência doméstica, no âmbito psicológico, físico e moral, e condutas agressivas em crianças na escola, participando como agressoras ou alvos/autoras de agressão (Pepler, Catallo & Moore, 2000).
            A criança, parte integrante da família, vivencia a agressão doméstica de forma direta, sendo alvo da agressão, ou de forma indireta, presenciando atos de violência entre os pais. De amba as formas, prejuízos à criança podem ser gerados (Jouriles, McDonald, Norwood, Ezell, 2001), como manifestações de comportamentos agressivos e até o desenvolvimento de Transtornos de Conduta que, segundo o DSM-IV-TR são caracterizados por um padrão persistente de comportamento que viola os direitos básicos dos outros e as normas ou regras sociais importantes e apropriadas à idade. Dentre os vários motivos que levam a um episódio de violência doméstica, há um consenso na literatura de que problemas de saúde dos pais, dentre eles o abuso de drogas e alcool, são fatores estressores que propiciam o desencademento desse tipo de violência (Caminha, 1999). Webster- Stratton (1997) afirma que mães com depressão, pais alcoolistas e comportamentos agressivos e anti-sociais dos pais implicam em fatores de risco.           
            A relação entre a participação das crianças, de forma direta ou indireta, na violência doméstica e a consequente manifestação de comportamentos agressivos na escola foram evidenciados pelos experimentos de Maldonado & Williams (2005) e Pinheiro e Williams (2009). No primeiro estudo, foram entrevistadas 28 mães, sendo 14 de crianças agressivas e 14 de crianças não agressivas, estudantes de uma escola pública de São Paulo. Das 14 primeiras,  28.6 % relataram a ocorrência de “violência em casa”, enquanto as segundas não relataram. Quanto à “violência contra a criança”, 42.9% das primeiras mães relataram a ocorrência, em relação aos 14.3% das mães  do segundo grupo.
            O segundo estudo explorou o conceito de Bullying e teve o objetivo de relacionar a violência doméstica com a participação, de alguma forma, em práticas de intimidação (Bullying) escolar. Ele é caracterizado por um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas, ocorrendo sem uma motivação evidente, praticado por um aluno ou um grupo, contra um aluno ou vários, causando dor, sofrimento e angústia. Esses atos compreendem insultos, intimidações, apelidos cruéis, além de danos físicos, morais e materiais, entre outros (Fante, 2005). Alguns autores dividem esse tipo de violência em três categorias: a intencionalidade do ato, a prolongação no tempo e o desequilíbrio de poder físico, psicológico ou social entre os envolvidos. Pinheiro e Williams encontraram que, de uma amostra de 239 adolescentes entrevistados, 49% relatou ter tido algum envolvimento em Bullying três meses anteriores à pesquisa. Sendo que destes, 26% foram exclusivamente vítimas, 21% foram alvos/autores de intimidação e 3% exclusivamente autores. No geral, 91,8% dos alunos que foram agredidos pela mãe ao menos uma vez estavam no grupo de alunos que sofreram e praticaram o Bullying, ou seja, os alunos que sofreram pelo menos um tipo de violência por parte da mãe tinham 3,2 mais chance de se envolver em Bullying como alvo/autores do que aqueles que não sofreram essa violência. Entre outras análises estatísticas mais complexas, de forma geral, os resultados confirmaram que os alunos que vivenciaram a violência doméstica, de forma direta e/ou sendo expostos à violência interparental, tinham maior probabilidade de se envolver em situações de intimidação (bullying) na escola, especialmente como alvo/autores.
            De forma conclusiva, lança-se um questionamento em relação à violência tão freqüentemente observada atualmente no contexto escolar, e o convívio familiar e suas especificidades. Existem diversas políticas de prevenção e luta contra a violência doméstica, principalmente a que envolve a violência contra a mulher, tão freqüentemente vivenciada por crianças e passadas de forma transgeracional ao longo dos anos. Mas as políticas não estão dando conta da enorme consequência a longo prazo a que essas crianças estão submetidas. A partir dos dados estatísticos apresentados, é possível se afirmar que a violência em casa é a principal formadora das condutas dos filhos, observadas na escola. Se a criança aprende o vocabulário da agressão como forma de solução para os relacionamentos interpessoais, ela possivelmente o reproduzirá quando for preciso e, tendo em vista a fase escolar, que compreende os longos anos da infância e da adolescência, a instituição escola talvez seja o principal endereço dessas manifestações sociais de violência, domínio, abuso da liberdade, desrespeito, falta de empatia, entre outros. Pode-se afirmar que o comportamento agressivo dos filhos nas escolas poderia ser compreendido como um “pedido de socorro”, já que a apresentação de comportamentos violentos pode ser considerado um fator indicador de que a criança se econtra em situação de risco, frente à exposição à violência severa (Maldonado & Williams, 2005).
            Que tipos de intervenção deveriam ser feitas? Como a família deveria participar nesse processo? Que função a escola tem quando participa ativamente de uma situação de violência e precisa intervir pelos alunos, vítimas e agressores? De que forma poderia haver uma comunicação entre a família e a escola?

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Bullying e saúde mental • Bullying and mental health

Bullying é o nome, de origem inglesa, dado a uma seqüencia de atos violentos de característica física e/ou moral, cometidos de forma incisiva e repetitiva, contra uma ou várias pessoas, que normalmente se encontram em uma situação de vulnerabilidade ou em um contexto ou situação em que se torna improvável a sua auto-defesa. Esse tipo de violência se configura entre pares, ou seja, entre pessoas semelhantes, que não estão em uma relação hierárquica ou de poder e por isso, é mais comum definirmos Bullying como a violência escolar entre alunos, apesar de ele ter outras definições em outras culturas.
         Muito tem sido observado no país ultimamente acerca do Bullying. Não porque o termo foi criado recentemente. Na verdade, essa definição já existe há alguns anos no Brasil mas, infelizmente, começou a "cair na boca do povo" há alguns meses, com o ocorrido em Realengo este ano.
           A tragédia de Realengo é um exemplo importante para dar início à discussão que pretendo gerar. Há muitos profissionais da saúde dizendo na mídia que o Bullying não foi o motivo principal pelo qual Wellington resolveu assassinar os estudantes no Rio de Janeiro. De fato, podemos dizer que foi um conjunto de acontecimentos e vivências, em toda a existência de Wellington, que puderam, juntos, corroborar para esse quadro. Mas não podemos deixar de fora o fato de que toda a violência moral e física vivenciada por ele durante quase todo o seu momento escolar teve uma importância gravíssima em sua saúde mental e sua visão de si próprio e do mundo. Em suas cartas, Wellington diz que o motivo de suas ações não tem a ver exclusivamente com o Bullying sofrido por ele. Mas diz respeito a várias outras lutas que ele tem para si, que no fundo poderiam estar intimamente relacionadas com a significação que ele dá para o conceito de violência,   respeito, convivência social, que com certeza foi construída em seu período de maior importância e formação de self, seu período escolar, que corresponde à sua infância e adolescência.
            Não podemos tentar procurar uma psicopatologia em que Wellington se encaixe, ele não está vivo para podermos compreender melhor sua subjetividade e não temos detalhes suficientes sobre seus pensamentos e seus reais motivos para ter feito o que fez. O que sabemos é que ele vivenciava uma nítida percepção distorcida da realidade, com pensamentos e crenças muito fortes, voltados para um estilo de vida e uma missão construída por ele como algo realmente importante para sua existência. Essa distorção, de acordo com seus conteúdos observados, provavelmente se relaciona intimamente com a realidade por ele vivida, não somente com o histórico de violência na escola, mas por todas as consequências geradas por um estilo de conduta que, aparentemente, já vinha sendo manifestado por ele desde pequeno. A compreensão social acerca de seu quadro parece bastante comprometida. Com certeza Wellington passou por muitas dificuldades e preconceitos. O próprio Bullying cometido contra ele denuncia que suas particularidades e suas características eram vistas como "estranhas" e "vulneráveis" por seus colegas de classe. Talvez não seja possível dizer a partir de que momento essa psicopatologia possa ter começado a se manifestar, mas pode-se afirmar que seu prognóstico foi fortemente influenciado pelo contexto em que ele precisou viver, marcado por  muitos episódios de violência, incompreensão e provavelmente segregação.
               Por isso, retoma-se o alerta em relação à probabilidade de um Bullying estar ocorrendo. Percebe-se que a criança modifica sua motivação para ir à escola, sua auto- estima fica prejudicada, ela experimenta bastante isolamento social, suas notas e aproveitamento das disciplinas sofrem grandes modificações. Se não é detectado pela escola e pelos pais que há algo que está afetando diretamente o emocional da criança, e nada é feito em relação a isso, ela tende a ficar pior e pode sim desenvolver outros prejuízos maiores para sua vida, tal como um adoecimento mental e físico e a conseqüente atitude impulsiva como o suicídio ou o homicídio, como o observado em Realengo.
                Antes de apontarmos o dedo para o agressor, no entanto, precisamos nos lembrar que ele também tem um sofrimento envolvido. Violência e abandono em casa podem ser fatores que colaboram para que a criança tome atitudes agressivas na escola, não só porque aprendeu e revivencia o que vê em sua própria família, mas como um depósito de ações agressivas e descarregadoras de tensão, que não são possíveis de serem manifestadas em casa. Também por aceitação social, encaixe no grupo, reconhecimento. O que é preciso ser lembrado é que violência e agressividade também é sintoma de um emocional desequilibrado. Não somente o agredido vivencia dor, o agressor também precisa de compreensão e precisa que suas condições de vida e seu contexto social seja modificado.
            O Bullying é uma violência que se manifesta a partir de uma demanda emocional que precisa ser bem investigada. Se não é possível preveni-la, é possível repará-la e evitar que fique mais grave e traga mais sofrimento tanto para quem o comete, quanto para quem o recebe. Nossas escolas precisam estar mais bem preparadas para falar sobre o assunto com seus alunos, mas também para saberem detectar e tomar providências caso percebam que algo está acontecendo. Precisamos lembrar que o período escolar pode significar momento de importante construção de um ser completo, com crenças, pensamentos, idealizações, condutas, motivações e interpretações que se refletirão em seus comportamentos como adulto anos depois. Se esse momento da vida não foi bem vivido ou foi recheado de péssimos vínculos e episódios traumáticos e fragmentadores, é possível que traga sérias consequências para o depois, trazendo bastante prejuízo para o ex aluno e podendo, inclusive, desencadear sofrimento psíquico grave.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Inimputabilidade penal • Mental Incapacity in criminal sentencing



O conceito de inimputabilidade penal diz respeito à incapacidade que uma pessoa apresenta de responder legalmente sobre um ato cometido, provocado pelo não entendimento das consequências de seus atos e a impossibilidade de ser punida pelos seus comportamentos. Ela é normalmente comprovada por perícias e divulgadas por laudos detalhados. Mas ainda assim é vista com maus olhos por muitos profissionais e ainda é muito discutida por todas as ciências humanas que, por algum motivo, ainda não dão conta da tamanha complexidade que o assunto pode gerar.
Mas para falar de inimputabilidade penal, primeiramente julgo necessário se falar no que realmente gera a incapacidade de uma pessoa em responder legalmente por seus atos e mais, por que o sistema prisional comum, como as penitenciárias que bem conhecemos, não são os melhores destinos para quem possui esse perfil inimputável?
São vários os motivos que levam uma pessoa a cometer um crime. A sociedade está acostumada a julgar comportamentos humanos sob uma base maniqueísta, em que o bem sai na frente no poder pela justiça e o mal deve ser punido independentemente de qualquer explicação ou causa. A verdade é que, analisando de perto, qualquer crime terá explicações plausíveis quando vistos pelo referencial de quem o comete. Falando em homicídio, é difícil deixar de lado toda a discussão moral e ética acerca do alguém que retira o direito de vida de outro alguém. Essa pressão filosófica é tão grande, que não cabe espaço para maiores análises ou para maiores explicações e a gente toma a posição de querer defender o "bem" e esquecer o "mal" ou deixá-lo longe do convívio social, longe de seus direitos, longe de uma compreensão e um perdão.
Ao meu ver, qualquer pessoa que esteja em sofrimento psíquico grave é uma vítima de uma consciência afetada. Digo vítima porque acredito que a consciência é um estado mental que tem muito mais controle sobre nós mesmos do que nós sobre ela. Fatores inconscientes mediadores e moderadores de comportamento podem ter suas portas abertas, uma vez que nosso sistema psíquico passa por qualquer embaralhamento e quanto a isso, não temos um controle consciente, não é como curar uma tosse tomando um remédio. São vários transtornos mentais que podemos listar como possuindo características de confusão com a realidade, não somente os psicodinamicamente psicóticos. Uma pessoa em depressão fortíssima terá uma visão da realidade afetada, mas isso não a classifica como psicótica. Um paciente com Transtorno de Personalidade Borderline também pode apresentar uma forma muito peculiar de enxergar sua convivência em sociedade, sobretudo sobre seus relacionamentos interpessoais, e isso também não o classifica como psicótico. Então o que, exatamente, faz com que uma pessoa se encaixe em um perfil de inimputabilidade penal?
De acordo com o DSM-IV-TR, transtornos mentais são "concebidos como síndromes ou padrões comportamentais ou psicológicos clinicamente importantes, que ocorrem num indivíduo e estão associados com sofrimento ou incapacitação ou com um risco significativamente aumentado de sofrimento, morte, dor, deficiência ou perda importante da liberdade". Então qualquer que seja a condição mental de um paciente, suficientemente prejudicial para seu funcional, ocupacional e social, pode-se dizer gerar um padrão clinicamente importante, no sentido de que deve ser tratado corretamente com psicoterapia e, muitas vezes, com psicofarmacologia. Um paciente com esquizofrenia, por exemplo, pode manifestar delírios e alucinações que condizem com um desejo muito grande de matar alguém, com uma explicação que, em seu universo subjetivo, é completamente plausível. Como um paciente suicida atendido no Hospital de Base, que acreditava com todas as forças que deveria se matar para livrar sua mãe dos espíritos do mal. Depois de ter sobrevivido à tentativa de auto-extermínio, o delírio do paciente passou a ser o de matar sua própria mãe, pois só assim ela seria liberta. Em um caso como esses, é complicadíssimo segurarmos o paciente pela mão e tentarmos fazer com que ele enxergue a realidade. Porque afinal de contas, de qual realidade estamos falando? Um paciente tido como portador de um Transtorno Mental vive sua subjetividade muitas vezes sem sofrimento consciente algum. Seus comportamentos e atos são tidos como lógicos e muitas vezes não há discurso racional que faça uma idéia ser barrada e desconstruída.
Um paciente com Transtorno de Personalidade Anti-social, o famoso sociopata ou psicopata, tem uma vivência tão apática quanto aos direitos vitais de outras pessoas, que ele pode assassinar um próximo simplesmente para conseguir suprir uma necessidade própria. Falta a esse paciente uma visão empática, solidária, e "consciente" com os valores morais estabelecidos por lei, por exemplo. Como julgar uma atitude de um sociopata sob os olhos do direito penal e garantir a ele uma sentença puramente punitiva se, ao final de sua condenação, ele retornará à sociedade ainda portando seu transtorno de personalidade e ainda carregando sua subjetividade e visão de mundo?
Questionar a inimputabilidade penal deve levar em consideração exatamente isso: a subjetividade e a visão de realidade que uma pessoa possa ter. É através do convívio que internalizamos valores morais que nos constroem como pessoas conscientes de nossos deveres e direitos como cidadãos. Quando com um aparato psicológico intacto e saudável, essa internalização ocorre facilmente, sem muitas dificuldades, e a simples visão do direito a vida do próximo é enxergada quase que automaticamente. Uma vez que esse aparato psíquico falha na introjeção desses valores morais "normalmente" consolidados, a consciência para o direito à vida de outrém já não é a mesma.
O sistema penitenciário brasileiro está focado em promover a punição daqueles que cometem crimes. São cárceres em condições desumanas, abrigando muito mais gente do que podem suportar, com um regime torturante. A visão não é a de uma recuperação do ser humano, muito pelo contrário, muitos saem de lá mais experientes do que já entraram. A punição severa a qual estão submetidos parece dar espaço apenas para um arrependimento profundo, o que não comprova que nunca mais precisarão cometer os mesmos crimes que já foram cometidos em outro momento. Mais uma vez, os diversos motivos que levam uma pessoa a se comportar e a cometer crimes são tão complexos, que nada pode ser comprovado acerca de uma outra situação em que um crime poderia ser cabível. Ou seja, é perfeitamente compreensível que uma pessoa possa sair da cadeia anos após ser admitido, arrependido pelo que fez, mas ainda em condições sociais e humanas tão precárias que a probabilidade de precisar cometer outro crime é ainda altíssima.
Vendo isso, é possível se enxergar os motivos pelos quais não há como sentenciar uma pessoa que não tem consciência de seus atos. Um anti-social, após matar seis garotos e não ver seriedade em seus atos, irá cumprir pena por anos e sairá ainda em sua condição mental e cometerá outros crimes tão graves ou piores quanto os já cometidos. Enquanto o sistema prisional estiver focando apenas na punição e não na recuperação do ser humano, não há como tratar as pessoas com perfil inimputável de outra forma.
Para sentenciar alguém ao corredor da morte, por mais que não tenhamos pena de morte aqui, parte-se do pressuposto de que essa pessoa possui plena consciência de seus atos e agiu de forma cruel, promovendo um mal para a sociedade e deve ser punida por isso. No entanto, isso não lhe retira o direito já pré-determinado de vida, de bem-estar e de existência digna. Se uma pessoa não é capaz de enxergar a realidade como enxergamos e não possui os olhos que possuímos para ver que seus atos causaram um mal a outras pessoas e feriram seus direitos como cidadãs, puni-la sob um regime comum não trará resultado algum, a não ser privá-la de liberdade, enquanto podia estar tendo a recuperação ou o tratamento correto para sua condição mental.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Gênero e violência conjugal • Gender and domestic violence



É milenar a história da vitimação feminina à visão hierárquica do patriarcado, que sempre colocou a mulher em uma posição de subordinada e passiva, diante de um poder masculino sempre ativo e disciplinador. Podemos chamar de gênero o papel que homens e mulheres têm na sociedade, e papéis de gênero, as atividades, comportamentos e funções atribuídas a eles.
Os papéis de gênero estão nitidamente retratados no nosso cotidiano nas mais variadas formas. A sociedade brasileira ainda carrega consigo um imaginário machista que se reflete desde a vivência dentro de casa, com a nossa educação de berço, até na consolidação da justiça, que teoricamente deveria privar por direitos iguais e justos. Apesar de muito ter mudado ao longo do tempo, inclusive com o movimento feminista, que conquistou um espaço fundamental nas políticas públicas e na reflexão social, infelizmente ainda se vive uma discriminação muito grande no que diz respeito à vivência feminina, em todas as dimensões.
É nítido o modelo educacional brasileiro passado de geração para geração. Desde crianças somos instruídos a ver o papel de homem e mulher muito bem consolidado, com regras, valores e idealizações bem limitados. As meninas aprendem a ver o mundo como um espaço que demanda uma postura materna, um preparo físico e emocional para ser reprodutora, dona de casa e boa mulher. Os meninos aprendem a se ver como provedores de uma vida familiar, estimulados a investirem em carreiras profissionais, a virarem seus olhares para o universo público. Esses papéis de gênero não são internalizados somente por meio da educação de casa, todos os meios de comunicação contribuem para a perpetuação desses ideais, mesmo que de forma indireta, moldando cabeças e instruindo condutas e atitudes perante uma sociedade que deveria ser totalmente heterogênea. Quantas vezes não vimos propagandas na televisão, retratando o contexto familiar e utilizando a imagem da mulher ora como uma dona de casa dedicada, ora como um pedaço de mau caminho, totalmente sedutor e perigoso? Quantas vezes não vimos em revistas femininas páginas e mais páginas estimulando cada vez mais o pensamento amedrontador da mulher, produzindo cada vez mais pensamentos machistas e debilitantes, do como agir em sociedade, o que fazer e o que não fazer diante de certas situações?
Toda essa visão da mulher como um ser frágil e submisso colabora para as relações de poder que se formam, quase que naturalmente, dentro de interações homem - mulher. Seja dentro da família com o pai sendo o centro disciplinador, seja dentro de relações afetivas, em que o cônjuge permanece em um papel ativo e dominador, seja no contexto do trabalho, em que homens exercem cargos de alto poder.
Muito provavelmente , essa internalização do poder masculino seja o principal fator que colabore para a ocorrência de tantos casos de violência conjugal, em que a mulher pode estar submetida, realmente, a uma relação de dominação e por simplesmente não poder se defender sozinha. O que se tem percebido é uma dificuldade de traçar um perfil de agressor, demonstrando que pode não existir uma padronização de comportamentos e de condutas masculinas que caracterizem esse quadro. Boa parte dos agressores é constituída por homens de classe média, com boa instrução e sem históricos prévios de violência. Então o que exatamente faz com que situações como essas ocorram?
Pesquisas têm demonstrado que homens tendem a praticar violência em momentos de raiva, reagindo a algum pensamento destrutivo em relação à mulher. Apesar de não haver um perfil muito bem determinado, há sinais prévios que demonstram ciúme e proteção exagerada por parte do homem, além de outros episódios de violência psicológica, normalmente muito difíceis de serem detectados. Talvez uma melhor pergunta gire em torno do motivo pelo qual tantas mulheres permanecem submetidas a relações conjugais violentas e por que parece tão difícil ter atitudes que decidam de uma vez por todas por acabar com esse ciclo de agressividade. Alguns dos vários motivos que as mulheres apontam para não denunciarem algum ato de violência dizem respeito ao medo de reagirem à agressão e passarem por algo muito pior posteriormente. Há mulheres que tendem a ver o ato de agressão como algo naturalizado, o pensamento de que é normal se esperar de um homem atitudes violentas, sinal de uma compreensão de papéis de gênero muito provavelmente passada por outras gerações. Há mulheres que preferem se submeter a relações conjugais violentas para protegerem seus filhos, para manterem a dinâmica familiar e também por relatarem amarem seus cônjuges e não verem o ato violento como algo de muita importância.
É importante se dizer que qualquer relação de violência, seja ela envolvendo homens agressores e mulheres vítimas, seja ela envolvendo homens como vítima e mulheres como agressoras, envolve uma interação dinâmica que precisa ser compreendida. O acolhimento é um procedimento de altíssima importância em qualquer um dos casos, pois terá um papel protetivo e preventivo, possibilitando até a resolução de problemas conjugais, centrais nesse contexto de violência.
Outra questão que pode ser levantada acerca do tema diz respeito aos diversos casos de violência conjugal praticamente inacabados e sem proteção nenhuma por parte do Estado. Apesar de a Lei Maria da Penha ter sido consolidada há alguns anos, ainda se pode ver posturas extremamente machistas no contexto jurídico, que acaba por transformar a agredida em transgressora, levantando motivos totalmente descabidos para justificar a atitude agressiva do cônjuge e tomando decisões que não visam a proteção da vítima, possibilitando novos episódios de agressão.
As discussões acerca dos papéis de gênero e das relações de poder são tópicos cada vez mais crescentes. Há ainda uma grande necessidade de reflexão acerca do tema para se levantar melhores idéias e posturas que podem gerar melhores acolhimentos e decisões protetivas. Compreender os motivos que levam uma relação a se estabelecer como uma interação de poder e violência é fundamental, mas saber como agir nessa situação, dando apoio à vítima, buscando a compreensão dessa dinâmica relacional e tomando decisões corretas que visem a prevenção de novos episódios violentos é ainda mais importante.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A memória • The memory



O que exatamente está envolvido no estabelecimento de memórias? Que áreas cerebrais subsidiam a aquisição de novas lembranças e a recuperação de fatos armazenados há algum tempo? Porque lembramos e esquecemos de tanta coisa? O que acontece quando sofremos lesões e temos amnésias?
A memória é um assunto de pesquisa tão complexo, que são necessárias páginas para se dissertar exatamente sobre tudo a respeito do tema! Mas existem alguns conhecimentos importantes e básicos sobre o assunto que podem ser explorados, trazendo um gostinho a mais de se pesquisar mais a fundo sobre esse assunto misterioso da vivência humana.
Bem, a memória é um fator da cognição ligada a vários outros fatores, essenciais para a nossa existência e interação. A memória está relacionada à aquisição da aprendizagem, consequentemente relacionada à resolução de problemas. Desde a aprendizagem sensorial, envolvendo o reconhecimento de estímulos ambientais, a nível tátil, auditivo, visual, até a aprendizagem semântica, envolvendo a construção linguística e fonológica, chegando à aprendizagem procedural, envolvendo o "saber como", as etapas necessárias e específicas para se realizar uma atividade e se resolver um problema.
A memória se configura em três formas. É a partir da memória sensorial que entramos em contato com os estímulos ambientais e armazenamos informações por um curto período de tempo. Nesse período, estamos nos utilizando da memória de curto prazo, que foi substituída pelo conceito de memória de trabalho. Essa memória é limitada e serve para que possamos realizar alguma tarefa, utilizando essa informação e conhecimento brevemente armazenados. Se criamos um acesso frequente a memórias de trabalho ou de curto prazo, elas podem vir a ser memórias de longo prazo, praticamente definitivas e passíveis de recuperação a qualquer momento. A memória de longo prazo contém lembranças inesquecíveis sobre fatos da vida, além de algumas outras informações que podemos até perder com o passar do tempo. Ela também pode ser dividida entre memória declarativa e não- declarativa. A primeira, diz respeito a toda a memória de que temos consciência, que podemos acessar tentando apenas resgatar uma informação. A segunda diz respeito às memórias inconscientes, que resgatamos inconscientemente, de acordo com estímulos e situações ambientais.
A memória declarativa pode ainda ser definida como do tipo episódica ou semântica. A primeira diz respeito à lembrança de episódios organizados no tempo. Como a lembrança de o que comemos no café da manhã, quais procedimentos e em que sequência tudo ocorreu. A segunda diz respeito à memória de significação, envolvendo palavras, números, códigos, etc.
Sabe-se que existe uma área cerebral responsável pela memória: o hipocampo. Mas foi a partir de estudos significativos que chegaram à conclusão de que o hipocampo não é responsável por todo tipo de memória. H.M. foi um paciente que passava por um quadro de epilepsia e passou por uma intervenção cirúrgica a fim de aliviar os sintomas da doença. Ele teve seus lobos temporais mediais bilateralmente retirados, o que facilitou o controle dos sintomas da epilepsia com o uso de fármacos, mas trouxe uma amnésia anterógrada grave associada a uma amnésia retrógrada leve. Amnésia anterógrada é uma incapacidade de lembrar e armazenar memórias após a cirurgia. Ou seja, H.M. ficou incapacitado de obter novas memórias depois que passou pelo procedimento, conseguindo apenas efetuar rápidas atividades, com o uso da memória de curto prazo. Amnésia retrógrada é uma incapacidade de lembrar memórias obtidas antes da cirurgia. H.M. teve uma amnésia retrógrada leve pois ficou incapacitado de lembrar de fatos que ocorreram alguns anos antes da cirurgia, mas era capaz de lembrar de vários fatos da infância, além de se lembrar de aprendizagens como falar, efetuar cálculos, vestir-se, entre outras coisas.
H.M. teve seu hipocampo comprometido por conta dessa cirurgia, o que levou os pesquisadores a pensarem que essa área está responsável pelo sistema de aquisição de novas memórias e, consequentmente, de novas aprendizagens. Criou-se então uma teoria de que o hipocampo recebe informações de outras áreas cerebrais, como núcleos da base a amígdala, e as modifica, transformando memórias de curto prazo em memórias de longo prazo. Mas não se sabe ainda quais áreas cerebrais estão ligadas ao armazenamento definitivo dessas memórias de longo prazo. Apesar de H.M. ter tido comprometimento de algumas informações de longo prazo, ou seja, ter apresentado uma amnésia retrógrada leve, ele ainda mantinha memórias remotas muito fortes. O que possibilitou que isso acontecesse?